Do livro Moinho

Do livro Moinho

sexta-feira, 17 de março de 2017

Amar é sofrer, e daí?!




Evaldo Balbino




Isto que escrevo não é um lamento. É apenas uma constatação. Sempre busquei evitar jargões quando estou escrevendo. Mas agora fiz isso já desde o título. Qualquer livro de autoajuda diz o que eu disse mais acima: amar é sofrer.

Agora estou doído e então faço eco do que não me envergonha, faço eco do que me machuca e se pode dizer com palavras tão simples e diretas. Quem ama, sofre! Inevitavelmente sofre!

E falo aqui de qualquer tipo de amor. Desde o mais egoísta (o que se confunde com paixão e posse), até o mais desinteressado (aquele que, quando pleno, muitos chegam a dizer que se trata do amor que temos por Deus – um amor sem pedir nada em troca).

Não vou aqui discutir esses tipos de amor e nem abordar o que existe de controverso em muitas questões que lhes dizem respeito. Não sou psicólogo nem teólogo. Muito menos sou consultor sentimental. Sou apenas um homem que sofre e sente. E quando sentimos, temos o direito de falar do que sentimos.

Quem ama sofre. Não tem jeito. A mãe pelo filho que sai de noite e volta altas horas da madrugada, o namorado pela namorada que ele não pode ajudar em tudo, a irmã pela outra que não está bem no namoro e causa preocupações, a tia pelo sobrinho que vai fazer uma prova e está ansioso, o primo pela prima que está grávida e que sente dores bem antes do parto previsto mais para diante, os filhos pelos pais avançando em idade, a amiga pelos amigos com indecisões na vida sem saber que medidas tomar, o dono pelo bichinho de estimação (amigo de longa data ou recente) cuja saúde está precária, o sobrinho pela tia que quer um namorado e morre de medo da impossível solidão, a mulher por seu vizinho que perdeu uma filha recentemente... E a enumeração não para nunca. Um ponto final aqui não seria condizente. Não seria condizente com a vida de todos os amantes do mundo.

Já é jargão também citar a famosa frase de Antoine de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. E é essa responsabilidade que nos faz sofrer pelo outro. Tudo o que diz respeito ao ser que amamos, também nos diz respeito. E não há como fugirmos de sofrer juntos com ele, em diversos momentos desta passagem linda e dolorosa que é a vida.

E por que, pois, não abrimos mão do amor, já que ele nos leva inevitavelmente ao sofrimento?

Conforme eu já disse, a vida é via dolorosa, mas linda. E na lindeza da vida somos agraciados com momentos felizes ao lado de quem amamos. Impossibilitados de ser ilhas, nossos flancos desejam roçar outros flancos, outros olhares, outros braços, outros seres. Não conseguimos mergulhar nas águas da solidão. Longe de ser pedras, somos águas-vivas que respiram e banham e tocam outras águas.

Dói afogar-nos nas águas alheias e nelas nos perdermos. Mas se assim não fizéssemos, não seríamos vida. Não poderíamos dizer que vivemos. Tanto é verdade o que digo, que, mesmo evitando buscar outros seres com que me relacionar, eu me torno um outro de mim mesmo. Minha imagem no espelho, o meu ideal de mim, o modo como me vejo e me percebo. Sempre darei um jeito de me transformar em outro para falar comigo, para ruminar meus medos e pensamentos. 
É impossível a solidão. E hoje, mesmo me sentido triste (pelas lonjuras de quem amo, pelas partidas de quem sempre amei, pelos olhos fechados para o agora em que estou, pela inexistência muitas vezes de ombros para eu roçar os meus...), dou graças à vida. Dou graças a Deus e a ela, apesar de tudo. Amemos!


©2017 Evaldo Balbino

5 comentários:

  1. Amigo: a distância traz sofrimento ao amor, mas nos dá a certeza de que existe!

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  2. Jovem Evaldo, permita-me deixar um simples comentário em seu texto de tamanha sensibilidade; aquele que escreve como você, demonstrando sentimentos sinceros, colocando-se à mostra e compartilhando suas dores, é um ser humano generoso, que oferece àqueles que não têm a sua facilidade de expressão, um meio de 'catarse', de intimamente dizer 'ele também sofre como eu...'
    Nunca pare de escrever; nunca deixe de oferecer ao outro seu ombro amigo em forma de textos, palavras, entrelinhas, reticências... É uma forma linda de amar, mesmo que doída.

    Com o carinho e respeito de sempre,
    Lílian Ramires

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    1. Querida Lilian, suas palavras me são um alento. A sensibilidade nos governa de várias formas, boas e ruins. E com tudo aprendemos. As dores do mundo nos atravessam. Mas com humanidade, com o contato afável entre as pessoas, entre as vidas, tudo o que é pesado e difícil fica mais leve. Obrigado pelo carinho de sua mensagem. Por mercê de Deus, continuarei escrevendo sim. Esse é o meu desejo. Um forte e amigo abraço.

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