Do livro Moinho

Do livro Moinho

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Comer o nome, ler a comida

By Elimar do Carmo - 2017



Evaldo Balbino



Nome pega e todo mundo sabe disso. Estudiosos da linguagem podem até falar que as palavras são arbitrárias, que são roupas que se vestem e que se desvestem em diferentes culturas. Não estou aqui para negar a ciência da linguagem. Mas a experiência é a base da vivência, e por isso não deixo de sentir que as palavras são as caras e as almas dos objetos que elas nomeiam.
Nome de pessoa, por exemplo. A gente conhece alguém e nunca mais consegue separar o nome da cara. Tentem trocar o nome de uma pessoa conhecida, e vocês verão que tristeza, suas mentes buscando perceber aquele rosto com outro nome. Isso não desce de jeito nenhum por goela abaixo. No final das contas, a cara do fulano tem a cara do nome dele, o rosto da beltrana é o seu próprio nome. Imaginem, por exemplo, se tenho há anos uma vizinha chamada Dulce, e de repente me chegam e dizem que o nome dela é Lourdes. Aí minha cabeça entra em parafuso e minha teimosia antiga não deixa meus olhos verem Lourdes onde sempre viram Dulce.
E com comida o mesmo acontece. Alguém já viu macarronada com cara de feijoada? Ou arroz parecendo angu? De jeito nenhum! A comida também vai ganhando a cara do seu nome. E assim vamos pondo cada coisa, cada comida em seu lugar. Batizamos tudo, e os nomes de pia vão seguindo pela vida afora, entranhados nas coisas.
Quando criança, eu levava tão a sério esse negócio de nomes, que cismava demais da conta com alguns nomes de comida. Porque os nomes têm cara, podem ter certeza.
Churrasco era coisa incômoda. Para menino acostumado que eu era lá na roça a ver cana moída nos engenhos, inevitavelmente churrasco me fazia pensar em bagaço de cana. Não me perguntem por que tamanha confusão. Era ouvir falarem em churrasco, me vinha na mente aquele monte de cana triturada, a montanha de bagaço no canto do terreiro.
Vaca atolada, nem se fala. Um dia meu tio falou que fora num restaurante em São João del-Rei e que lhe serviram esse nome esquisito. Fiquei pensando numa vaca atolada de verdade. E como eu só a tinha visto atolada em brejo uma vez na casa dum primo, então fui imaginando meu tio comento barro fedido com uma vaca dentro.
Nhoque, nem pensar! Como eu faria para comer essa coisa, ouvida só de nome porque nunca a tinha visto? Palavra esquisita. Parecia que eu é que seria comido por nome tão glutão assim. Via-me diante do prato e, de repente, NHOC!!! Adeus, menino guloso!
Mamãe dizia que dava muita comida boa ao lado de corregozinhos. Um dia ela falou que iria cortar Serratucano para o nosso jantar. Fiquei com medo do nome. Parecia algo que serrava tucano. Uma ave tão bonita não podia morrer daquele jeito violento que o nome da guloseima prenunciava. Só fui ficar tranquilo depois que vi que o dito cujo apanhado por mamãe era um brotinho mais ou menos que nem broto de bambu.
E por falar em serrar, desde muito cedo comecei a conviver com a serralha. “Muito amarga”, minha irmãzinha reclamava. O nome era feio, pois me fazia pensar em algo que cortava, que podia nos serrar em vários pedaços. Mas depois que eu vi que os vários pedacinhos eram a própria serralha que mamãe cortava, uns filamentos fininhos de dar gosto que nem chuva fina gostosa, nunca mais pensei coisas tortas dessa verdura. E passei até a amá-la quando comida com angu e macoco em panela de ferro.
E o pé-de-moleque, o que fazer com esse nome? Quando bem pequeno mesmo, eu não ia a festas juninas. Somente depois, lá pelos sete ou oito anos, é que comecei a ir. Eram as festas da escola. E que espanto tive quando me falaram do pé-de-moleque! Imaginei um pé de criança sendo comido. E um horror tomou conta de mim. Só depois é que fui ver que se tratava de um doce gostoso e tentador.
Falando assim desses nomes de comida, uma vontade de comer exatamente tudo isso me assalta. E aí lembro (e como lembro!) de pamonha, daquela que se fazia na minha região, massa feita de fubá e assada em folha de bananeira. Gostava de comê-la, mas não gostava do seu nome. E isso porque ele me fazia lembrar quando meus irmãos gritavam comigo: “Ê, pamonha, anda mais rápido com isso!”, “Você é lerdo mesmo, hein, pamonha!”. E então o nome me atazanava, me dava raiva. Mas a pamonha assada, essa me fazia ser feliz, me dava entradas para o Paraíso, para esse nome bonito e florido, um bom lugar para se viver.

© Evaldo Balbino 2017

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O boi não é marido da vaca

By Elimar do Carmo - 2017



Evaldo Balbino

Sei que os bovinos não se casam. Felizes eles, pois não criaram instituições que tornam os humanos atabalhoados e preocupados com cerimônias prazerosas mas cheias de trabalho. Os bois e as vacas se olham, se roçam, se acasalam. Simplesmente vivem a vida sem muitas invenções.
No entanto, como viver é também carregar cruzes, esses quadrúpedes pagam lá o seu preço. Desde os tempos antigos têm servido ao homem que muitas vezes os trata sem o devido respeito.
Já eu os respeito demais da conta. Gosto de vê-los ruminando no pasto, numa paciência maior que a de Jó. E olha que, mesmo sofrendo, não apelam para Deus, não questionam nada. Pelo menos é isso que meus olhos e ouvidos humanos acham. As vãs certezas humanas. Os achismos. E enquanto vou achando, fazendo deduções apoiado em minha duas pernas, os bovídeos vão pastando sobre duas patas e dois pés. E seus olhos olham os pertos e os longes, estendem-se pelas campinas silentes, às vezes mugindo e outras dormitando, as pálpebras cerradas para espreitar o silêncio do mundo.
Amo os bois e as vacas. E os bezerrinhos, nem se fala! No início meio molengos, quando recém-nascidos. Uma graça de lerdeza que me faz apaixonar. Depois a esperteza, perdendo somente para os cabritinhos.
Não tenho receio do gado do mundo. Só não uso roupa vermelha quando passo perto de seus corpos rijos, olhos arregalados e orelhas em pé, atentas. E isso não é mito. É verdade. Certa feita, num hotel-fazenda perto de Belo Horizonte, quando vários professores da universidade onde trabalho estávamos num seminário interno, um grupo de colegas fomos indo para a área gourmet na hora do almoço. Atravessávamos uma trilha de pedrinhas no meio do pasto. Uma professora passou perrengue com suas roupas de um vermelho escancarado. Se não fosse o resto do grupo para tapar a presença encarnada daquela mulher, ela teria sido um alvo perfeito de uma vaca furiosa.
Volto a dizer: o boi e a vaca não se casam. Uma vez, porém, quando eu era adolescente lá em 1990 na Escola Conjurados Resende Costa, como teria gostado que eles fossem casados. Melhor ainda: teria adorado se eles fossem um ser só, inseparável. Nem adiantaria que fossem simplesmente o macho e a fêmea de uma família de mamíferos. Explico o porquê dessa minha insanidade.
A professora de História, Elzi Reis, trabalhava conosco a sociedade hindu. E eu me empolgava com o livro: as ilustrações me mostrando um deus de faces e braços, poderoso para criar e recriar o mundo com a beleza de uma flor de lótus (a pura beleza imperecível), a arquitetura sublime e as vestimentas exóticas para mim. Lembrem-se: estou falando de uma época em que não tínhamos internet, essa coisa toda de acesso fácil e rápido às informações do mundo todo dia e toda hora, até mesmo lá dentro de nossa casa com um simples aparelhozinho. Não, não tínhamos.
E me apaixonei, não me esqueço, pela foto da escultura grande de uma vaca, e outra foto ao lado (na mesma página do livro) de uma vaca de verdade sendo abraçada por um homem. E a professora falava que os indianos tinham a vaca como animal sagrado, não comiam sua carne e não a maltratavam. Então me deu vontade, ali mesmo na aula de História, de morar na Índia, de conviver com essa existência sagrada sobre quatro apoios, com seu leite farto para bezerros tenros e cheios de vida. Essa vontade me deu até desejos de Paraíso, aquele mítico e perdido lá nas eras adâmicas, onde todos os seres viviam em paz entre si.
Esse meu desejo, porém, sofreu um primeiro golpe uns quinze dias depois. A professora nos aplicou uma prova sobre as sociedades estudadas. Numa questão de V ou F, afirmava-se num item que o boi era o animal sagrado da Índia. Marquei um V ali entre os dois parênteses, crente de que estava certo, certíssimo, numa inabalável certeza como a que me faz segurar nas vestes ardentes de Deus.
    Uma vez entregue a prova corrigida, meu desapontamento. Eu tinha errado a atividade. Como podia esse negócio de a vaca sim ser sagrada e o boi não!? Alguma coisa errada havia naquilo. Não que eu achasse que a professora e o livro estivessem errados. Mas também não aceitava que animais da mesma família fossem considerados à parte. A Taxonomia não me salvava de desilusões. Esse fato só serviu para eu achar muito complexa a humanidade e para insistir, outra vez e às minhas expensas, no sonho de que o boi e vaca são um só corpo vivendo na plenitude de um campo paradisíaco, sagrado e imperecível.

© Evaldo Balbino 2017