Do livro Moinho

Do livro Moinho

sábado, 8 de abril de 2017

Os borralheiros venturosos

Evaldo Balbino


A fila se estendia um pouco, sempre pra diante. Mas eu estava com paciência. Mesmo porque me divertia com as duas senhoras conversando diante de mim, comentando sobre a correria da vida, o trânsito incorrigível, os altos preços de tudo, uma carestia danada.

A mais idosa iniciou o colóquio com a outra mais nova. Começou por dizer que não ia de jeito nenhum pra fila preferencial, porque não tinha pressa nenhuma e porque gostava de conversar com as pessoas com mais vagar. E os assuntos entre ambas foram rendendo, variando, mudando de tema e forma.

“Tudo pela hora da morte, minha filha, tudo!” – dizia a senhora já idosa à mulher mais jovem, e falava com sabedoria. A outra, ouvidos atentos pra se distrair da fila, concordava com a cabeça, um meneio cheio de decepção com a vida.

E a conversa das duas seguia-se como se nada fosse interrompê-la.

“E a senhora não viu o que o governo tá querendo?! Agora é o salário arrochando, mais tarde uma aposentadoria que não vem nunca... só Deus na causa, viu!”

“E ainda por cima o preço do feijão! Já viu o preço do feijão?! Depois falam na TV que a inflação está caindo!”

“Conversa pra boi dormir, dona! Pois outro dia vi num mercado que o quilo do feijão preto tava R$3,90. Quase caí pra trás! O carioquinha mais de R$6,50! Um absurdo! Comprei dez quilos do preto pra estoque.

“Mas o preto estava só isso?!” – a cara de espanto da senhora, com a boca fazendo um biquinho de terror, ficou engraçada.

Nas idas e vindas da conversa, como num pingue-pongue necessário pra que o fio do diálogo não se esvaísse e desse sentido pra aquela fila, pra aquele barulho infernal vindo da avenida lá fora, pras facadas que cada um de nós ganharia no caixa daquela farmácia, pois os medicamentos também estão lá nas nuvens. Tudo mesmo pela hora da morte.

De repente, no vaivém da conversa, outra mudança de rumo. Começaram a falar de unhas, e isso porque a mulher mais jovem levava no braço um detergente neutro.

“Detergente em farmácia é caro demais, menina!” – proferia a sábia voz.  “Vai no mercado mais lá embaixo, perto da Contorno, que é melhor!”

Com gestos resignados por estar gastando mais, a outra explicou que precisava levar dali mesmo, que não teria tempo de descer lá na avenida não porque tinha que logo pegar o ônibus que a levaria ao hospital. Era enfermeira. Com as unhas já feitas, “e eu paguei uma fortuna pra manicure hoje!”, ela não poderia usar qualquer detergente. Tinha que ser o neutro.

E a partir daí começaram outras lamentações das duas. Eu me senti diante daquele muro lá em Jerusalém, onde os fiéis (também infiéis) choram suas dores, seus pecados, suas misérias. E as duas mulheres choravam, olhando-se com piedade, pelo excesso de louça a ser lavada, o chão a ser limpo com produtos químicos destruidores de qualquer beleza. Logo adiante, esta delícia pra ser ouvida:

“Pois eu, minha filha, não abro mão de luva não! Até hoje! E todo sábado é sagrado, sacralíssimo! É quando descanso mãos e pés em água morna e boa. Minha manicure é uma santa protetora. Uma santa! Com ela, saio do mundo, leve que só vendo!”

Que bom ouvir tudo aquilo. Nem tudo são choradeiras na vida mesmo. Os bálsamos são pra isso. Um batom que se passa; um tênis bonito, mesmo sendo baratíssimo, a dar mais garbo pros pés; um penteado diferente; uma roupa estampada e alegre comprada pra se ajeitar no corpo e fazer a alma um pouco mais feliz... Que mal há nisso tudo? Nenhum. A vida é bela, porque nós a enfeitamos.

Atento à conversa das duas, e com esses pensamentos adejando na minha cabeça, não me dei conta de que a mulher mais idosa já estava me olhando e sorrindo. Só me apercebi disso com a pergunta muito afirmativa que ela me dirigira:

“Está vendo, rapaz, como as mulheres sofrem!!”

Sorri pra ela, querendo agradecer pelo “rapaz” que me rejuvenescera uns 15 anos, mas também lhe sendo grato por ter dividido comigo essas dores que são, na verdade, de todos nós.

Então lhe disse que os homens também sofrem. E ela, folgazã, insistiu que não. “Os homens não têm estrias, não geram filhos, não têm a dor do parto, não se preocupam com as unhas na hora de limpar a casa, não acumulam vários serviços ao mesmo tempo, não...”. E aí teve de parar. Sua enumeração continuaria infindável se a garota do caixa não a tivesse chamado, porque sua vez de ser atendida já chegara. Despediu-se num sorriso gostoso e lá se foi pra tomar as facadas da atendente dócil que só vendo. A mulher mais jovem não me deu papo. Até entendi isso, pois desde o início eu era um mudo. Só ouvidos. E logo ela também foi chamada.

Depois dessa cena, fiquei e ainda estou pensando algumas coisas. Há verdade no que aquela senhora disse? Creio sim que haja verdades, sem dúvida. Mesmo com tantos avanços, sabemos, as mulheres ainda são muito sobrecarregadas. Digo “verdades”, porque também havia ali, no discurso amigo e bom daquela mulher, alguns equívocos.

Nem tudo é tão certinho assim na vida. Aqui é isso, ali é aquilo outro, acolá é assim e mais pra lá ainda é assado. Não, nem tudo é desse jeito. Há muitas coisas na vida que não se medem com clareza, não se classificam e não se separam tão nitidamente. Aí me lembrei do pastor outro dia dizendo na igreja que devemos ter a prudência da água que não se mistura com o óleo. Ora essa, onde tanta certeza assim?! Cada um de nós é água e óleo ao mesmo tempo. Não tem dessas coisas não.

Havia alguns equívocos sim na fala daquela senhora. Nem todo homem, e nem toda mulher, deve ser categorizado desse ou daquele jeito. Eu mesmo tenho horas de angústia e de terror perante a louça que se acumula na pia da minha cozinha. Às vezes é preguiça, confesso, mas nem sempre. Há muitos momentos em que eu me perco com tantos apelos, com tanta coisa pra fazer. E não tem jeito: lá sobre a pia as vasilhas vão se acumulando, se imiscuindo umas com as outras, se enroscando de modo desavergonhado. E não sou puritano não! Elas podem se enroscar sim. O problema é que fazem isso olhando pra mim. E se fosse um olhar obsceno, com segundas e gostosas intenções, tudo bem. Mas não!! Olham pra mim porque querem me escravizar, isso sim!

E também não é preocupação com minhas unhas. Nem as faço. Como sempre brinco com amigos: já nasci com as unhas feitas, não preciso de manicure. O problema é o tempo que é pouco e a gente com muita coisa pra fazer. Uma música de Beethoven pra ouvir, um livro esperando leitura, o carteiro chamando no interfone, a fome que se deve matar todo dia em horas esparsadas, o show da Marisa Monte na sexta de noite gritando pela minha presença, as aulas pra preparar, o namoro que não pode ficar pra escanteio (porque beijar é sempre bom, e eu não sou bobo, uai!), as reuniões aos montes lá no trabalho e em sua maioria sem frutos, a vizinha precisando de ajuda... E pela casa o pó se acumulando, a louça sujando-se, a roupa suja pedindo água e sabão, as coisas ficando fora do lugar no dia a dia, o corpo da gente pedindo banho, a cama chamando, o despertador avisando que o novo dia chegou com várias coisas boas e muitas cobranças etc., etc., etc...

Aff! Que vida vertiginosa a nossa! Múltipla e vertiginosa. Só que não vou ficar diante de um muro das lamentações não. De jeito nenhum! A vida é bela e boa, apesar de também ser cheia de cansaços. Viver é maravilhoso, não se deve negar. E, como sempre diz o povo: “cruzar os braços, só depois de morto”. Enquanto isso, vamos vivendo, conforme Deus manda, conforme as necessidades exigem, conforme os nossos desejos propiciam.

© 2017 Evaldo Balbino

10 comentários:

  1. Gostei! E concordo temos sofrimentos e alegrias, cabe a cada um saber a qual dar mais valor! E tbm sei que homens e mulheres tem seus sofrimentos, embora eu concordo com a senhorinha, as mulheres sofrem mais! Rsrsrs....

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  2. Que bom, Silvana!!!! Fico feliz de saber que você discorda em algum ponto de mim e concorda mais com a minha personagem (a senhorinha). Isso quer dizer que, para você, a personagem foi além do autor. Afinal, ela tem mais a ver com você, com suas opiniões (Rsrsrs). Obrigado pela leitura carinhosa. Um forte abraço.

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  3. É isso mesmo, Evaldo. Você colocou nessa crônica discursos reais e pertinentes às personagens escolhidas. E você (autor/personagem) mostrou exatamente essas conversas em enormes filas podem causar naqueles/as que estão aparentemente fora da conversa.
    E os sofrimentos causados pelos afazeres do cotidiano atingem a todos nós, homens/mulheres/jovens/idosos. E cada um conforme sua visão de mundo e como encara a vida e seus desafios. Acredito que todos temos a cada dia desafios e problemas a enfrentar e cada um os enfrenta e resolve (ou não) na medida do (im)possível. Mas viver esses desafios cotidianos com sabedoria é o que nos move. Obrigada. Leitura excelente para um domingo em que vou fazer almoço pra minha sogra já bem velhinha e carente de cuidados e carinhos. Grande abraço meu amigo.

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    1. Suas reflexões são pertinentes, Luciana. A arte, e aqui no caso a literatura, tem este poder: o de nos falar do que já sabemos, mas que, no cotiano mesmo se perde, no dia a dia muitas vezes não sabemos que sabemos. Muito obrigado pela leitura. Estou feliz com este blog: criado em 26 de janeiro de 2017, e já está com quase seis mil visualizações. Gosto de ver a literatura circulando. Um forte e amigo abraço neste domingo em que estamos vivos, escrevendo, fazendo almoço, cuidando de nós e dos nossos.

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  4. Viva! Lindo texto risível e goXtoso de se degustar. Escreva mais!

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    1. Obrigado, Generosa. E vamos escrevendo, graças a Deus!

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  5. Evaldo, suas crônicas são bem pertinentes e atemporais. É fundamental este debate sobre os gêneros, mas confesso que me chama atenção a tua proposta no último paragrafo. Independentemente, a intensidade de quem sofre mais ou não, fica a dica que não devemos lamentar. Vivamos com muito amor, saúde e paz espiritual.

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    1. Caro Edilson, de fato o sofrimento é de todos, em diferentes níveis muitas vezes, mas sempre sofrimento. E acima de tudo, sobre nós e dentro de nós, paira a vida, a vida amorosa sempre. Um forte abraço.

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  6. ESTAMOS MAIS PROPENSOS A RECLAMAR DA VIDA DO QUE AGRADECER A DEUS PELAS PEQUENAS DÁDIVAS QUE ELE NOS CONCEDE. AS PESSOAS SÃO ASSIM MESMO. JÁ DIZEM: SE DEUS FOSSE LEVAR EM CONTA TUDO O QUE AS PESSOAS RECLAMAM. É UM MAL INCONTIDO. PRAZER EM TORNAR A FALAR CONTIGO, PROFESSOR EVALDO.

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  7. Caro Ramoel, isso mesmo. Não sabemos agradecer a Deus pelo que temos. Nas pequenas coisas do cotidiano, nas pequeninas mesmos, encontramos motivos suficientes para agradecer, para ter momentos de felicidade. Um forte abraço!

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