Do livro Moinho

Do livro Moinho

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Mais simples


Evaldo Balbino

Outro dia, na fila do hipermercado, uma mulher me atendia solícita, sorridente. Então me perguntou se eu queria parcelar o valor da compra.
"Gostaria sim", eu lhe disse. "Sei que nem tudo vai ser possível, mas o que for de bazar e pet dá pra dividir. Sempre divide. E vai ajudar no meu bolso, na conta no fim do mês".
Ela sorriu de novo e foi fazendo lá na máquina suas operações aparentemente fáceis, complicadíssimas para o meu próprio entendimento. Para minha surpresa, o computador dividiu praticamente tudo em gordas três parcelas sem juros. Diante do meu espanto, a funcionária disse alegre:
"Engraçado, nem sempre divide quase tudo assim! Esse sistema não é entendível mesmo!"
Devolvi-lhe, agradecido, o sorriso. E gostei muito daquele "entendível" solto, sem peia nenhuma, livre de amarras. O seu falar foi doce, foi um ar bom de se respirar no meio de tanta gente, numa fila infindável e estressada atrás de mim.
Na saída do hipermercado, vi dois cães namorando. Magros, sujos, mas alegres em seus volteios, em seus jogos de sedução sem receios. Enfrentando uma vida seca, lá estavam eles com vida e fulgor.
Cheguei a casa e quis ter uma vida assim. Não na secura ou na umidade, não numa fila ou fora dela. Porém uma vida simples, como as palavras daquela mulher. Uma vida concreta, instintiva como as dos cães em seu idílio no estacionamento do shopping.
Então sonhei. Deitado sobre a cama, acordado, sonhei que eu era outro. Que dizia coisas simples, palavras sem freios. Sonhei que andava sem regras. Que amava como um cão.
A vida poderia ser mais simples. Não poderia? Deveria ser menos cheia de esquisitices, de dificuldades desnecessárias, de palavras ensaiadas, de poses para retrato.
Enquanto muitas vezes busco palavras com que dizer as coisas deste jeito e não de outro, enquanto me perco procurando gestos mais adequados para transmitir a alguém o sentimento mais preciso, enquanto tento isso ou mais aquilo, a vida vai passando sem pensar em si mesma. E vou vendo ao meu redor fatos, pessoas, bichos, muitos seres vivendo de modo mais espontâneo, mais leve, mais livre. Pelo menos essa é a minha sensação.
Então fui possuído por um espírito benfeitor. Sobre a cama fui visitado pela Vontade com "v" maiúsculo, a Vontade imensa de não me prender a gramáticas, de dizer desdizendo, de fazer desfazendo, de andar por caminhos diferentes e não usuais.
E à força de sonhar assim, fui ganhando asas. O que eram raízes prendendo o meu corpo no lençol foi se transformando em asas: estas palavras que me pastoreiam altas, estas linhas que me guiam nuvens. E vou escrevendo, desde então. Vou escrevendo ao léu, ao prazer que me toma de falar. No prazer de viver instintivamente. De modo entendível e transparente.

© 2017 Evaldo Balbino

4 comentários:

  1. Que lindo e profundo. Amei.
    Posso ler com meus alunos os?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Renata, querida. Lógico que pode! O texto, se não circular, não tem sentido na solidão. Divulguemos a literatura!!!! Beijos amigos!!!!!

      Excluir
  2. Respostas
    1. Muito obrigado, Ana Paula. Caso possa divulgar o blog e os textos, agradeço muito. Um forte abraço.

      Excluir