Verso do poema "(Des)motivo" - do livro "Moinho" - 1ª edição 2006; 2ª edição 2021

domingo, 19 de setembro de 2021

A escritura amorosa e humana em "Mãe, a ti, nossos primeiros versos"



Nascido no Projeto Lecriar, do Colégio São Mateus em Montes Claros, Minas Gerais, o livro Mãe, a ti, nossos primeiros versos (Montes Claros-MG: Editora Gráfica Millennium, 2019. 76 p.) conta com prefácio assinado pela professora-pesquisadora e mestre em Literatura Brasileira, Noêmia Coutinho Pereira Lopes. Coordenado pela professora Joyce Aparecida Andrade Freitas e levado adiante pela professora Pollyanna Luiza Corrêa Ruas, o projeto busca despertar e consolidar nas crianças o amor pelas palavras, o que lhes garante o direito à literatura, nos termos de Antonio Candido.

A prefaciadora Noêmia abre o lindo livro com palavras de Mirna Pinsky em epígrafe, uma frase que nos diz exatamente das palavras fazendo pontes entre as pessoas, pois nossas palavras, as primeiras e pela vida afora, sempre bebem nas águas alheias ("O que veio primeiro foi o encantamento pelas palavras de outros."). Daí a importância da alfabetização e do letramento, pois, em contato com outras vozes, vamos erguendo as nossas próprias. E por que não fazer isso por meio da poesia? Afinal, o poetar nos habita a todos!

As organizadoras do livro, Joyce e Pollyanna, tecem uma apresentação para a brochura, e o fazem buscando em Paulo Freire a premência de que nós educadores temos consciência: é preciso que a leitura seja um ato de amor. E foi esse amor que levou as professoras Pollyanna, Joyce e Noêmia (respectivamente, ministradora das aulas, supervisora e orientadora) a estimularem os educandos a conhecer, aprender e vivenciar a escrita de poemas. Aqui a escrita surge como um processo de construção social e de emancipação do sujeito que, via linguagem, se constrói e erige seu lugar e sua expressão no mundo.

Os autores-mirins são vários, e variada é a produção que se nos oferece. Com o sempre amor no manuseio das palavras.

Convidados a caminharem pela estrada da leitura e da escrita, os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental I (alunos do 4º e do 5º ano, cuja faixa etária, pois, gira em torno de 9 a 10 anos) aceitaram a poesia e se puseram nas trilhas das palavras, com versos rimados ou não, homenageando as mães. Fotos dos discentes alternam-se com os poemas. E estes, carregados de amor pelas mães, poetizam as relações e a vida.

Os versos são predominantemente curtos, em sua maioria perto das sete sílabas. É a presença da redondilha a mostrar a popularidade dessa dicção, duma oralidade tão cara em nossas vidas e com a qual as crianças convivem desde cedo. Daí a facilidade com que a garotada aprende facilmente os redondilhos.

Iniciando-se na escrita de metáforas, os autores-crianças já vão criando imagens para as mães representadas nos poemas. Assim ocorre em versos simples como estes, nos quais a alegria se associa à primavera por oposição à fera — e tudo isso é imagem da mãe:

Mãe é pura alegria!

É alegria todo dia.

Às vezes, é uma fera!

Em outras, primavera. ("Amor de mãe", p. 31)

Atrelando-se à alegria e à positividade do ser materno, surge a mãe-herói, amazona forte e protetora, o que na tradição — em termos de fortaleza — é atribuído frequentemente aos homens e não às mulheres:

Toda noite você me dá um beijo

e realiza o meu desejo.

Em meu sonho, ergue a espada.

Amazona mais amada. ("Mãe", p. 17)

O ser da mãe é associado, também em linguagem figurada, ao brilho. Metonimicamente, parte-se do sorriso da mãe para dela se falar, do brilho do sorriso, do brilho  da mulher-mãe. E a comparação com o diamante surge, vencendo na balança poética a existência materna:

Seu sorriso é tão brilhante;

vale mais que um diamante!

Seu amor é tão gigante,

bem melhor que um romance. ("Mãe", p. 17)

A imagem do brilho, da luz, comparece na ideia do parto, desse ato de dar à luz um ser infante. Mas aqui, nos poemas de Mãe, a ti, nossos primeiros versos, as crianças têm voz, voz poetizada, e não são de modo algum in-fantes (sem fala). O escrever como falar, como ato existencial. O gesto de dar à luz um filho — e também de dar-lhe a luz — é do mesmo modo o ato de conduzi-lo pelos meandros dessa mesma luminosidade:

Você que me deu a luz

e agora me conduz. ("Mamãe", p. 45)

Essa condução é do nível dos afetos, mas também, sem dúvida alguma, se relaciona com o estar no mundo e estar envolvido em tudo o que ele nos coloca. Assim, por exemplo, se fala da educação num mundo consumista:

Quando vamos ao shopping

e eu insisto em gastar,

você diz: "na volta posso pensar",

mas eu sei que não vai comprar." ("Nossas mães", p. 49)

Num exorcismo da solidão, a qual já nos segue desde a nossa infância, levanta-se o desejo da presença materna, presença que nos dá sentido para a vivência:

Quero você sempre comigo.

Quando você sai,

deixa meu coração partido

e a casa fica sem sentido. ("Te amo, mãe!", p. 25)


A não presença da mãe é abertura para o sentimento de autoexílio, ausência de si mesmo que o filho experimenta:

Mãe, em vez de ficar exilado,

eu prefiro ficar ao seu lado. ("Mãe", p. 37)

Tal sentimento negativo é afugentado em outros poemas, quando se tem certeza da presença (mesmo que na ausência) da figura materna:

Quando eu estiver sozinho no mundo,

sua luz vai me guiar.

Você é a mais importante!

Sempre vou te amar. ("O valor das mães", p. 51)

 

Quando a noite chega,

ela me abraça e me beija

e mesmo em meu quarto sozinho,

sei que ela não me deixa. ("Mãe", p. 69)


Os poemas dos jovens escritores não deixam de representar o lado humano do amor, pois até mesmo os sentimentos filiais e maternais são atravessados pelo que há de humano em nós, com erros e acertos:

Sempre brigamos

e também nos desculpamos.

Somos humanos;

assim, erramos e amamos! ("Mãe", p. 59)

Outra questão a ser pontuada é a diversidade na representação das mães, a pluralidade de identidades, a certeza poética e vital de que na existência não existe o estereótipo de Mãe Universal:

Tem mães que são atletas,

praticam até natação.

Outras são tranquilas

e adoram ouvir canção! ("Mãe", p. 75)

Assim são estes poemas: expressões dos afetos e do mirar o existir de mães e filhos. Passos primeiros e primordiais dos pés (e das mãos) no jogo com as palavras, para extrairmos delas as vozes outras e as nossas, a leitura amorosa e amante, a escritura que nos constrói poeticamente na vida.


© Evaldo Balbino — setembro de 2021

19 comentários:

  1. Lindos poemas,a cada trecho, uma doce lembrança de infância,um belo afago do amor tão puro e singular de uma mãe! Parabéns a todos!!!

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    1. Querida Renata, grato por seu comentário. Poetizemos as memórias!

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    1. Grato, sempre! E que as crianças sejam estimuladas a entrar nas veredas da literatura!!!!!!!

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  3. Belas palavras, Evaldo! Belo trabalho, Polly, Joyce e Noêmia! Que orgulho ser colega de pessoas tão dedicadas e capazes. Nossas crianças merecem vocês. Parabéns!!!

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  4. Fascinante!!! Que as nossas crianças sejam cada vez mais estimuladas a caminhar pela estrada da leitura e da escrita.

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  5. Parabéns aos alunos do Colégio São Mateus e à professora Noêmia Coutinho por mais um maravilhoso trabalho desenvolvido, agora em parceria com as professoras Poly e Joyce.

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  6. Linda resenha, Prof. Evaldo Balbino! Obrigada pela gentileza de ler o livro! Foi um prazer desenvolver esse trabalho, em parceria com as Professoras Joyce Aparecida Andrade Freitas e Pollyana Luiza Corrêa Ruas! Alunas e alunos se envolveram com a proposta e mergulharam no mundo da escrita, brindando-nos com poemas cheios de amor em homenagem às mães. Continuemos acreditando no poder transformador da Educação!!! Abraços!

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  7. Meus queridos, ler o livro foi uma honra para mim. Obrigado, professora Noêmia, por me conceder tal presente. Há tempos fiz a leitura, mas somente agora consegui parar para revisitá-la e, a partir de agora, buscar retomar as resenhas no meu blog.

    Quando vejo projetos assim, que levam as crianças ao mundo da literatura, fico fascinado. Fico feliz, pois vejo que a Educação é o caminho. Parabéns às professoras e aos alunos!!!

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    1. A honra foi nossa!!! Certamente, alunas e alunos do Colégio São Mateus, bem como as respectivas famílias ficarão muito contentes de verem o livro resenhado por alguém de tamanha competência e sensibilidade, Professor Evaldo! Como sabe, já levei seus livros para minhas aulas! Suas palavras são fonte de inspiração!

      Foi um prazer trabalhar com as colegas, Professoras Joyce e Polly e conhecer as produções das turmas delas!

      Sigamos acreditando na Educação! Abraços!

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  8. Professor Evaldo Balbino, estou encantada com suas palavras. Sou Pollyanna, uma das professoras envolvida no projeto. Foi muito gratificante trabalhar com Noêmia e Joyce e levar aos alunos um pouquinho da paixão pela leitura e escrita que partilhamos. Mais gratificante ainda, foi ver os olhos dos alunos brilhando ao pegarem em um livro escrito por eles.
    Muito obrigada pela resenha!

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  9. Prof. Evaldo, agradeço imensamente pela apreciação do livro. Sou Joyce Freitas, elaborei o projeto e o coordenei, contando com a Noêmia, sempre tão disponível para revisão, escrita do prefácio e para tantos outros momentos necessários para a sua concretização, e com a Pollyanna que executou, brilhantemente, em sala de aula o projeto, instigando os alunos a darem o melhor deles. Sinto-me honrada em ler cada pedacinho da sua resenha. No decorrer da leitura do seu texto, pude relembrar dos alunos e seus processos de escrita. Tantas idas e vindas de textos, escrita, revisão, correção. Cada poema diz muito de cada aluno e da sua relação com a escrita.
    Que linda resenha!

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  10. Um afago no coração ler estes poemas tão singelos e uma resenha que ressalta toda a beleza de como as crianças enxergam suas mamães. "Eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita e é bonita"!

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  11. Lendo essa resenha, deu muita vontade de ler esse livro! Maravilhoso!

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  12. Orgulho por fazer parte da mesma equipe de educadores integrada pelas professoras Joyce Freitas, Pollyanna Corrêa e Noêmia Coutinho! A literatura é levada a sério por essas profissionais! Deus, por Cristo Jesus, seja louvado pela vída de cada uma!

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  13. Parabéns! A literatura encanta a alma.

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  14. Parabéns a todos os envolvidos nesse trabalho. Realmente encantador. Como já disse o grande Drummond" Aa crianças são poetas por natureza".

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  15. Parabéns a todos!
    Que bacana esse incentivo à literatura!

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