Do livro Moinho

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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Que tiro foi esse? O vampiro, os patos e as panelas na cara da política e da sociedade brasileiras






Evaldo Balbino



Que tiro foi esse?! Não, não vou falar aqui no tom jocoso e na piada pela piada do funk que tomou as pessoas pelo Brasil afora nestes últimos meses. Rir por rir também é bom, nosso corpo e mente agradecem. Mas nossa mente e corpo precisam também, e sobretudo, de bombardeios ferinos, de arte que se faz com estética e ética.

O tiro foi dado neste Carnaval de 2018 pela Paraíso do Tuiuti. Com o tema do trabalho escravo na história do mundo e do Brasil, a escola de samba arrebatou a atenção de muitos, chegando a ser o assunto do momento. Graças a Deus!!! Coisas boas ainda atraem as pessoas.

Levando ao desfile o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, o carnavalesco Jack Vasconcelos faz uma pergunta retórica e joga na cara do mundo um NÃO retumbante.

Os carros alegóricos fizeram desfilar na Sapucaí a memória triste da opressão que atravessou os humanos em suas relações de poder. Mas a tristeza dessa memória não é motivo para lamentações e muito menos para esquecimento. Muito pelo contrário. A arte vem com toda força para nos dizer que o passado e o presente devem ser passados e repassados a limpo, criados e recriados, encenados e reencenados. E nessa performance memorialística nós podemos pensar, sentir, refletir nos modos como negar os males de nosso mundo e como construir futuros. Nega-se não para olvidar, mas no sentido de questionar para fazer diferente.

Alguns chegaram a dizer, e não deixam de estar certos, que a escola de samba trabalhou com generalizações quando, por exemplo, abordou diferentes culturas do continente africano. Isso é fato. É um fato que, porém, não tira o mérito da Paraíso do Tuiuti em denunciar que a escravidão não acabou no mundo. E muito menos no Brasil.

O enredo foi se concentrando aos poucos na história do nosso país. E chegamos, mais ao final, ao momento sociopolítico e econômico que vivemos em nosso país: um momento de retrocesso nas conquistas sociais.

A ala dos Guerreiros da CLT bradava carteiras de trabalho, denunciando-se com isso os abusos a que os trabalhadores têm sido cada vez mais submetidos.

O último carro alegórico nos trouxe um lance definitivo – o presidente vampiro e diabólico na sua pomposa faixa presidencial. Faixa essa arrebatada num golpe de estado. No topo de um carro chamado justamente Neo Tumbeiro, uma reatualização do navio negreiro denunciado por Castro Alves, essa encarnação do presidente Michel Temer nos olhava com olhos ávidos e um rosto branco entre dólares.

Na parte mais baixa desse carro, fantoches eram “manifestoches” batedores de panelas. Manifestantes sem vontade própria. Patos com cifrão nos olhos, panelas sendo batidas em suas mãos, todos eles eram marionetes dos altos poderes industriais, jurídicos e midiáticos. E todos, nessa dança política vergonhosa do Brasil, manipulados sob a batuta do grande vampiro Michel Temer, como representado.

Apareceram panelas que, bem no seu dentro, traziam colados papéis com o dizer “Fora, Temer!”. E isso, mesmo dentro das panelas, não foi feito “por debaixo dos panos”. Não, não foi feito! Muitas personagens marionetes eram submetidas pelos atores, e estes artistas faziam questão de mostrar o de dentro das panelas para as pessoas e para as câmeras de televisão. Na arte a liberdade pode gritar, atirar, arremessar, jactar, jogar. Lançar aos quatro ventos o que se quer dizer, toda e qualquer palavra presa na garganta.

E nesse momento os comentaristas da Globo quase nada puderam falar. Até então, durante o deslizar do enredo crítico, esses mesmos comentaristas diziam de detalhes sobre o passado do Brasil e do mundo. Agora, no arremate, proferiram generalidades, não arriscando descolar-se muito das figuras da encenação. Falavam de "classe dominante, “faixa presidencial”, "vampirão".  Até mesmo quanto à ala dos manifestantes fantoches, os anotadores ficaram vexados e nem ousaram nomear, para além das figuras, os bichinhos amarelinhos que, em profusão, deslizavam pela Sapucaí. Os comentaristas, coitados, são também escravos. “Escravos" da patroa Globo. Vítimas como muitos de nós de um grande bandido: o grande empresário que paga o nosso salário e que exige que falemos só o que pode ser dito.

O tiro foi dado na Sapucaí. Bem na cara da corrupta política brasileira. Na cara dos grandes empresários. Na cara das mídias-níqueis. Na cara dos altos juristas sanguessugas. Na cara, por fim, das muitas pessoas alienadas das classes médias; das que, batendo panelas, julgaram-se donas de si mesmas quando, na verdade, eram títeres nas mãos dos que de fato detêm os poderes em nosso país.



© Evaldo Balbino 2017