Do livro Moinho

Do livro Moinho

sexta-feira, 31 de março de 2017

Pedras entre mares


Evaldo Balbino

A ilha
é um olho vendado a me olhar.
É mar
no vácuo impenetrável de um lar,
onde a família é ilhada.

A ilha
é a marca intocável de um corpo
protelando um encontro imaginário em um bar,
onde bebe embriagada a humanidade.

A ilha
é retórica terrível de um narciso.
É discurso infindável e solitário de um mundo,
onde o fundo da existência é dividido.

A ilha
é muro venéreo de um estado.
É luto anunciado por um mudo,
cuja palavra é fria e isolada.

A ilha
é a palavra isolada de uma língua.
É código onde os corpos e a cor do amor
são indecifráveis.

A ilha
é uma ilha ilhada em alto-mar.

(BALBINO, Evaldo. Filhos da pedra. São Paulo: Nelpa, 2012. p. 49)

terça-feira, 21 de março de 2017

Um poema qualquer


Evaldo Balbino

O poema existe
pra que eu fale nesta noite
e sinta o barulho do silêncio
modelar a poesia que me vem.
Tenho como posses
insolúveis dúvidas:
esta forma, teus braços inatingíveis
e uma voz que fala em vão.
Meu amor, se é que existe,
não caminha pelas ruas de meu sonho;
e eu vou escrevendo,
me fazendo sorriso,
pose para um retrato em moldura de pedra,
em que o tempo não possa me destruir.

(BALBINO, Evaldo. Filhos da pedra. São Paulo: Nelpa, 2012. p. 25)

sexta-feira, 17 de março de 2017

Amar é sofrer, e daí?!




Evaldo Balbino




Isto que escrevo não é um lamento. É apenas uma constatação. Sempre busquei evitar jargões quando estou escrevendo. Mas agora fiz isso já desde o título. Qualquer livro de autoajuda diz o que eu disse mais acima: amar é sofrer.

Agora estou doído e então faço eco do que não me envergonha, faço eco do que me machuca e se pode dizer com palavras tão simples e diretas. Quem ama, sofre! Inevitavelmente sofre!

E falo aqui de qualquer tipo de amor. Desde o mais egoísta (o que se confunde com paixão e posse), até o mais desinteressado (aquele que, quando pleno, muitos chegam a dizer que se trata do amor que temos por Deus – um amor sem pedir nada em troca).

Não vou aqui discutir esses tipos de amor e nem abordar o que existe de controverso em muitas questões que lhes dizem respeito. Não sou psicólogo nem teólogo. Muito menos sou consultor sentimental. Sou apenas um homem que sofre e sente. E quando sentimos, temos o direito de falar do que sentimos.

Quem ama sofre. Não tem jeito. A mãe pelo filho que sai de noite e volta altas horas da madrugada, o namorado pela namorada que ele não pode ajudar em tudo, a irmã pela outra que não está bem no namoro e causa preocupações, a tia pelo sobrinho que vai fazer uma prova e está ansioso, o primo pela prima que está grávida e que sente dores bem antes do parto previsto mais para diante, os filhos pelos pais avançando em idade, a amiga pelos amigos com indecisões na vida sem saber que medidas tomar, o dono pelo bichinho de estimação (amigo de longa data ou recente) cuja saúde está precária, o sobrinho pela tia que quer um namorado e morre de medo da impossível solidão, a mulher por seu vizinho que perdeu uma filha recentemente... E a enumeração não para nunca. Um ponto final aqui não seria condizente. Não seria condizente com a vida de todos os amantes do mundo.

Já é jargão também citar a famosa frase de Antoine de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. E é essa responsabilidade que nos faz sofrer pelo outro. Tudo o que diz respeito ao ser que amamos, também nos diz respeito. E não há como fugirmos de sofrer juntos com ele, em diversos momentos desta passagem linda e dolorosa que é a vida.

E por que, pois, não abrimos mão do amor, já que ele nos leva inevitavelmente ao sofrimento?

Conforme eu já disse, a vida é via dolorosa, mas linda. E na lindeza da vida somos agraciados com momentos felizes ao lado de quem amamos. Impossibilitados de ser ilhas, nossos flancos desejam roçar outros flancos, outros olhares, outros braços, outros seres. Não conseguimos mergulhar nas águas da solidão. Longe de ser pedras, somos águas-vivas que respiram e banham e tocam outras águas.

Dói afogar-nos nas águas alheias e nelas nos perdermos. Mas se assim não fizéssemos, não seríamos vida. Não poderíamos dizer que vivemos. Tanto é verdade o que digo, que, mesmo evitando buscar outros seres com que me relacionar, eu me torno um outro de mim mesmo. Minha imagem no espelho, o meu ideal de mim, o modo como me vejo e me percebo. Sempre darei um jeito de me transformar em outro para falar comigo, para ruminar meus medos e pensamentos. 
É impossível a solidão. E hoje, mesmo me sentido triste (pelas lonjuras de quem amo, pelas partidas de quem sempre amei, pelos olhos fechados para o agora em que estou, pela inexistência muitas vezes de ombros para eu roçar os meus...), dou graças à vida. Dou graças a Deus e a ela, apesar de tudo. Amemos!


©2017 Evaldo Balbino

sábado, 11 de março de 2017

Brioche no sábado de Carnaval


Evaldo Balbino

          Os meus amigos ficaram na rua pulando o Carnaval ontem de noite. Devem ter atravessado as avenidas, os blocos vários, as esquinas bêbadas e alegres, as fantasias espalhafatosas, a madrugada.
E eu fiquei em casa, parado. Sem samba, suor e cerveja, como diria Caetano Veloso. Se pelo menos eu tivesse ido pra rua caminhar um pouco! Na avenida perto de casa as pessoas andam com seus amigos e cachorros. Com gatos não, porque esses meninos são indomáveis pra ser guiados em coleiras.
Eu devia ter saído. Mas não saí. Fiquei em casa, sentado diante da tevê. Olhando novela, jornal e outras maravilhas na tela que me deixa parado, sentado no sofá. Só a mão erguida de vez em quando pra mudar os canais: uma atividade física e tanto!
Dormi tarde e acordo agora, também tarde. São dez horas da manhã. Tem um brioche sobre a mesa. Solitário. E o recheio é de goiabada.
Tudo bem que não é daquela goiaba lá da roça, orgânica, cultivada pelos homens do campo e pelo tempo, comida por pessoas e por passarinhos. Comida também por bichinhos escondidos na polpa deliciosa. E minha mãe reclama. “Goiaba boa era a de antigamente! Hoje em dia, só bicho!”
Esse antigamente de mamãe deve mesmo ser muito antigo, pois quando eu tinha uns dez anos, ou seja, há trinta anos, as goiabas eram pomo de discórdia entre mim e os bichinhos vorazes. “Credo, menino, vai comer isso?! Tem bicho!” E minha gula nada dizia, mas agia. A boca imensa de menino pequeno ia aparando a goiaba, passando de soslaio pelos vermezinhos, deixando-os vivos pra vida, mas aproveitando a massa sobrante.
Pois a goiabada de dentro do brioche me olha, petulante. Passo pela mesa afetando desdém. Dou de ombros ao que me chama. Pego o telefone e ligo decidido pra academia de musculação.
“É da Academia Força do Atleta?”
A voz de uma garota atende com tédio, pois é Carnaval e ela está trabalhando. É uma garota, porque a conheço. Está sempre lá na recepção.
“Sim, senhor”.
Senhor!!! Pra que tanta formalidade, se sou apenas um mero mortal querendo malhar, cuidar do corpo que tanto reclama de dores, de encurtamentos, de uma vida sedentária por demais?!
Enfrento o tédio da funcionária. Não me dou por vencido. Enfrento o tédio e a formalidade dormida.
“Vocês vão abrir quais dias neste Carnaval?”
“Bem, senhor, estamos abertos hoje e depois só na quarta-feira de cinzas, depois das 14 horas”.
Que está aberto hoje eu já sei, senão ninguém atenderia ao telefone. Penso isso com deboche, com ares de ranzinza, mas o brioche está lá encima da mesa, sorrindo e rindo pra mim. Abandono o ar de sarcasmo e vou adiante.
“E hoje fica até que hora?”
“Bem, tem duas alunas aqui na piscina. Já estão quase terminando. Como não tem aluno nenhum na musculação, é provável que a gente feche antes das 13”.
“Mas antes das 13 quando, mais ou menos?”
“Talvez daqui a pouco. O senhor sabe: Carnaval, todo mundo some...”.
“É verdade.” Digo simulando decepção, tentando enganar a mim mesmo. E pra me animar: “As pessoas pulam muito estes dias, né?! Isso já é exercício”. Ela ri do outro lado. Mal sabe a moça que não pulo Carnaval, que sou um toco de pau fincado no chão, um poste na beira da estrada. Nem o vento consegue me balançar nesta falta de jeito que tenho pra dança. Como fico no meu silêncio pensante, a garota busca se retratar:
“Mas o senhor é aluno? A academia está muito vazia. Como eu disse, só duas senhoras. Mas a gente pode esperar pelo senhor”. Ela fala isso por educação, porque sou cliente, porque pago, porque deve respeitar um freguês. Afinal, negócio é negócio!
“Bem, não quero incomodar”. E lembro, pra minha salvação: “Você disse que abre na quarta, né?!”
“Sim.”
“Pois então. Sem problema. Na quarta apareço aí. Muito obrigado, tá?!”
Desligo o telefone e tento me socorrer, livrar a consciência de qualquer pecado. Ainda mais por estes dias, festa da carne, a quaresma se achegando. Deus me livre!!! Pecados devem ser evitados: a preguiça, a luxúria, a inveja, a vaidade de um corpo forte, a avareza, a ira e (é claro) a gula. Ah, meu Deus, a gula! A indefensável e inelutável gula! Que inveja tenho dos que passam a água! Nem pão pra engordar o corpo. Atravessam a vida como Cristo no deserto e não aceitam ofertas escandalosas. Que inveja, meus Deus!! Mas o que estou dizendo??!! Nada de inveja, nada de gula!
Saio contrariado de perto do telefone e passo rente à mesa. O brioche escancara o riso, riso de Carnaval pros meus pobres olhos humanos.
Decido, como o fraco e submisso andarilho diante do tentador no deserto. Pego da garrafa um café saboroso e misturo com leite gordo, com nata portentosa. Parto uma fatia do brioche, só uma, com um pouquinho de goiabada só. E prometo, sem mentir porque mentira também é pecado: comerei só está fatia. Esta fatia e nada mais!

© 2017 Evaldo Balbino

quarta-feira, 8 de março de 2017

Erótica


Evaldo Balbino



Me debruço sobre teus olhos
e beijo tua língua entre dentes.
Toco com os dedos tuas palavras
esdrúxulas,
rumores a verbalizar meu corpo,
louco de ser eu e tu.
Acaricio teu discurso astuto,
querendo jurar-me amor
verbal
e sempre.


(BALBINO, Evaldo. Filhos da pedra. São Paulo: Nelpa, 2012. p. 22)

quarta-feira, 1 de março de 2017

Estas mal traçadas linhas *

Evaldo Balbino

Cesse de uma vez meu sonho vão
de que o verso brilhe para todos.
Os olhos estão cansados, outras luzes
acariciam as faces das pessoas.
O neon das cidades mostra corpos
e mesas com copos de cerveja.
As fotos espargem água insana
pelas redes sociais e insaciáveis.
Os perfis, os textos tantos e tontos
curtidos, vistos e não lidos.
O jogador de futebol esbanja poses
entre mulheres seminuas e barcos
num harém que é motivo de festa
para se publicar e comentar.
O taxista outro dia me disse, convicto:
“Nada de livros, não quero palavras;
só guiar o carro que é meu pão de cada dia”.
E ele está certo, o homem sério
com seus filhos, esposa e a casa simples
comprada a longas e duras prestações.
Seu carro range como range a vida
entre o ar pesado e o seco asfalto
da cidade em chamas de concreto.
Todos falam do poeta, dizem dele,
porque é mister que se fale
da poesia agora e sempre
sem que nela se esbarre.
Amam as mãos vazias do bardo,
plenas só do falar que nunca cessa.
Amam suas mãos e desconhecem
o que diz a letra, o que fala a imagem
em cada verso feito em contraluz.
Não quero mais escrever estas linhas,
este bordado que a custo reluz,
estas palavras em verso, pantomimas
olhando silentes o silêncio sem luz.

* A quem escrever o que escrevo? Por que dizer tanto a pouca gente? Eis um poema inédito em livro, acabado de se escrever agora, num pensamento meu sobre esta escrita que me persegue e segue um difícil curso pela vida.

© 2017 Evaldo Balbino