Do livro Moinho

Do livro Moinho

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O nosso jardim de Cecília (canto a quatro vozes)


By Maria Ângela Haddad Villas e Roberto Caldas - 1985


O principal de tudo era o sapo jardineiro. Chapéu e calça azuis, uma camisa vermelha com esmaecidos laivos de branco. O chapéu era meio mexicano, para proteger do sol: rebaixado na cabeça e de abas razoavelmente largas. As cabeças dos sapos já são mesmo achatadas. Talvez fosse por isso que o chapéu era assim. E o sapo de que falo era verde. Nunca vi de verdade nenhum dessa cor. Os sapos da minha vida sempre foram de um tom mais sério, fechado. Me apaixonei pelo sapo que, sei muito bem, nunca viraria príncipe. Nem precisava virar.

As flores eram várias e muitas. De cores que eu nunca imaginara habitassem em flores. Rosas, vermelhas, azuis, amarelas, verdes, anis, violetas, laranjas e outros tons mais que já se misturaram nas memórias dos meus olhos. Brotavam do chão como brotam desejos de vida, anseios por alegria e eternidade. As florezinhas e suas folhas enfeitavam a terra e o gramado do jardim.

As borboletas também eram multicores: leves sobre o jardim, levitando entre lavadeiras e passarinhos. Se não fosse o apelo visual aos meus sentidos, eu imaginaria mulheres lavando roupas num riacho, bem no debaixo de pássaros folgazões. Mas meus dedos tocavam o livro, meu corpo sentia seu cheiro, meus olhos beijavam sua página colorida. E o que eu via eram insetinhos alados sobrevoando como helicópteros vivos as águas de uma fonte azul e branca. Com seus dois pares de asas transparentes, com seu corpo compridinho e cheio de anéis, cada uma das lavadeiras dava voltas pelo jardim e retornava sempre em voos rasantes para a fonte fresca e convidativa.

E os ovos verdes e azuis nos ninhos? Onde estavam? Lá jaziam, porém num só ninho, bem em cima do braço da estátua de primavera, uma menina linda, fantasmal, com cabelos longos e face branda. Toda ela de pedra, talvez, mas parecendo macia na sua alvura quase transparente. Sobre a sua cabeça, um pássaro descansando de voar. Em cada orelha uma flor, possivelmente furtadas por ela mesma do jardim. Ou então não tenha sido roubo, e sim oferta amável do sapo jardineiro e dócil. A menina de pedra segurava um balde também pétreo, do qual jorrava a fonte de água azul e branca.

Vagando sobre a mureta da fonte, o caracol namorava a queda d’água. Tomava sol úmido, esperando pelo arco-íris que ainda não aparecera. O raio de sol já atravessava as águas, só que o arco-celeste trazia ares tímidos, hesitando em mostrar-se ao caramujo exibido e celestroso. As antenas da lesminha estavam ligadas, voltadas para o ar líquido e levemente rumoroso à beira da fonte, esperando por mais vida onde a vida já era muita.

O lagarto, também verde, andava entre o muro e a hera. Do mesmo modo nunca vi, de verdade, lagartos verdes. Nunca fui apresentado a nenhum de carne e osso. Porque os répteis são vertebrados, aprendi isso desde cedo. E o verde lagarto, embrenhando-se pela trepadeira, sentia cada tijolo frio do muro, que era coberto de musgo num setembro que ia entrando. E ali o bichinho se misturava ao verde da planta.

O formigueiro, bem perto de tudo, era cerro alto galgado por formigas incansáveis. Em fila indiana, subiam e desciam as obreiras. Perto do sapo e do formigueiro, um grilinho dentro do chão, vindo de um buraquinho da terra e espreguiçando-se do sono tranquilo que tivera lá no escuro da toca. Era um grilinho preguiçoso, se podia ver.

Sentada no muro da fonte, ao lado da estátua de primavera, a cigarra tinha as pernas cruzadas onde apoiava seu violão. Ela e o instrumento eram uma coisa só, pura música e cor e vida. De olhos fechados, ela parecia sonhar com o que cantava. Sua boca fundava mundos, ditava o compasso da existência. O sapo, as flores, as borboletas, as lavadeiras, os passarinhos, os ovos verdes e azuis nos ninhos, a estátua de primavera, o caracol, o raio de sol, o lagarto entre o muro e a hera, o formigueiro, o grilinho e a cigarra cantando eternamente. Tudo isso era fruto do canto da cigarra.

E a cigarra verdadeira, voz humana poetizada, era Cecília Meireles no seu canto. A poeta leiloava com palavras um jardim e as belezas dele. E assim ela me vendeu a beleza para a vida inteira. Não somente ela, mas também Maria Ângela Haddad Villas e Roberto Caldas, os ilustradores que tornaram mais pictural ainda o poema da autora que me enfeitou a infância.

© Evaldo Balbino 2018

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A nossa história em cinzas: o perigo do esquecimento






No fim do dia de ontem, na Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro, o Museu Nacional em chamas mostrou com evidência um país que abandona todos os dias as suas culturas. Já vítima há tempos de uma degradação paulatina (com falta de verbas governamentais, de reformas adequadas, de financiamentos etc.), o museu viveu ontem o ápice a que pode chegar um desgoverno, um barco aparentemente sem capitão e sem leme que demonstra ser o Brasil.

Aparentemente sem capitão e sem leme é o nosso país. Pois existem sim capitães lá em Brasília e em todas as outras instâncias executivas da nossa nação. O barco, que parece à deriva, na verdade segue rumos de acordo com a sede de dinheiro e de poder dos tais capitães. Os umbigos dos caciques políticos falam mais alto do que as reais necessidades da civilização brasileira. E são várias essas necessidades, entretanto falo aqui basicamente dos imperativos culturais. Constatar isso me faz ter um sentimento perigoso de frustração e me faz ver as caras de políticos (em panfletos, na televisão e na internet) como figuras reais de seres que utilizam a política como carreiristas e sanguessugas no corpo do povo.

Quem andar pelo Brasil afora terá o desprazer de presenciar o descuido com nossa arquitetura, o desprezo para com nossa memória histórica e cultural. Rios de dinheiros são gastos com eventos populares, com festas de exposição agropecuária, com apoio a torneios esdrúxulos onde animais são objeto de diversão humana, com shows de qualidade duvidosa. Mas pouco ou quase nada se investe, por exemplo, em nossos museus. Há exceções. E, como este substantivo indica, são poucos os casos extraordinários. O desleixo que vemos em nosso país em relação aos bens culturais é estratégia de um governo ao qual interessam o lucro próprio dos seus ocupantes e o lucro das elites endinheiradas daqui e do mundo.

Há quem veja, infelizmente, qualquer museu como coisa do passado. Tal pensamento encara o tempo como se fosse apenas um agora se projetando para o futuro e desdenha tudo o que construiu e constrói constantemente nossa agoridade. Somos o que somos em construção, porque diversos fatores vieram e vêm confluindo para o que estamos vivendo hoje. O esquecimento é um perigo para qualquer cultura. Esquecer é perder a identidade. Esquecer é deixar que males se repitam, que explorações se reatualizem, que os grandes problemas históricos retornem fantasiados ou não com outras máscaras. Se forem as mesmas assombrações do passado a retornarem, muitos as têm por novidade. E isso por desconhecimento da nossa história, da nossa formação cultural.

Estamos, indubitavelmente, num país onde existe um culto ao esquecimento. Habitamos uma nação onde constantemente transformamos em cinzas parte da nossa história ou, às vezes, toda ela. Estamos num país em que forças reacionárias, violentas e perigosas, ressurgem a toda hora como vozes heroicas, como salvadoras da pátria. Como acreditar num país em que muitas pessoas dizem que votarão em discursos militares defensores, por exemplo, de torturas a adversários políticos historicamente conhecidas?

A tática das forças reacionárias de nosso país é o apagamento, o esquecimento. Um povo sem memória é escravo da alienação, é marionete, é fantoche. Um país que não apoia e não reconstrói cotidianamente suas culturas, suas memórias, é um país fadado a ser um barco não à deriva, mas uma nave dominada por capitães que são donos do privilégio econômico.

O incêndio que começou ontem no Museu Nacional e que atravessou praticamente a madrugada do dia de hoje é mais uma demonstração de como nossos governantes zelam pela nossa cultura. Acidentes acontecem. Mas não garantir infraestrutura adequada para se evitar ou combater tais acidentes ou é loucura ou é malícia devotada a interesses espúrios. E eu digo que se trata de malícia e de interesses espúrios. Interesses de governos que passam ao largo de qualquer democracia.
Hoje pela manhã, o museu em cinzas. E para que esta fênix renasça, precisamos dos brasileiros de olhos abertos, precisamos de cidadãos mais antenados com as questões culturais do seu país, necessitamos de eleitores mais atentos e mais ativos para acompanharem a atuação de nossos governantes.


© Evaldo Balbino 2018

domingo, 2 de setembro de 2018

Uma voz para ser ouvida






Evaldo Balbino


Hoje pela manhã me dei um presente. Que a gente deve se amar dessa maneira, presentear-se, e não esperar que apenas os outros nos amem, nos presenteiem. O amor a si mesmo não é egoísmo, e sim um modo de se fazer existir, de se ter autoestima, de um reconhecimento em si dos próprios limites, mas também dos próprios e adoráveis valores.
Nesse amor de mim para mim mesmo, me dei então um presente. Em sintonia com as modernidades, não busquei discos, porque não os tenho; nem CDs, pois estes estavam lá num armário e a preguiça domingueira não me deixou sair da cama. Acessei então o “doutor” Google e naveguei pela modorra dominical.
Na Web, fui direto para as canções do Vander Lee, esta cigarra sem peias que compôs e cantou tão bem nesta vida. As baladas do Vander me embalam, me dançam, me fazem sentir e apreciar a boa poesia na música. Já tive oportunidade de escrever sobre o artista em outro momento, uma hora triste, quando ele faleceu. Fiz isso no dia 08 de agosto de 2016 numa crônica chamada “Trem do desejo pela noite escura”, a qual foi publicada no Jornal das Lajes. Foi-se ainda muito jovem o Vander, mas deixou obra de fôlego e consumada.
A canção que me dei nesta manhã foi nada mais nada menos do que “Onde Deus possa me ouvir”. Foi um vídeo ao que acessei. E um desejo como um rio profundo me atravessou, um silêncio na melodiosa voz do cantautor, seu semblante circunspecto, seu corpo curvando-se nos momentos em que a letra demanda um corpo curvado, a boca se abrindo e os olhos dizendo tudo junto com as palavras. E de vez em quando o cantor sorrindo, pois o sorriso é necessário nesta vida mesmo quando falamos de coisas muito sérias.
E meu corpo mergulhou na música, meu corpo querendo encontrar alguém sem palavras, mas alguém que me oferecesse um colo ou um ombro. Alguém que viesse para ouvir desenganos desta vida louca, de pessoas tristes, de amigos nem tanto amigos assim. Vander me acendeu, mais uma vez, o anseio de eu morar no meu interior, para ali, nos recônditos do meu ser, entender mais as agressões entre as pessoas, os seus combates e debates, os abismos escuros onde se jogam o tempo inteiro.
E se eu encontrasse esse alguém com um ombro amigo, aí eu lhe pediria, como o fez o cantor, pra eu chorar até cansar, pra ele me levar a algum sítio onde Deus em sua plenitude pudesse me ouvir. E eu diria ao ombro amigo e a Deus que não consigo compreender tão grande dor. Meu coração não abarca dor tão absurda. A dor em pensar nesse mundo e suas sombras. E também a dor, a que me salva, a que me atravessa e me fere quando escuto a beleza e as verdades dessa canção.
E continuei vendo o vídeo e ouvindo a música. Atento, amante. Aprendendo que não devemos buscar diretamente no outro a completude da nossa vida. Só indiretamente é que devemos fazê-lo, e é através do belo que reside em tudo aquilo que o outro é capaz de produzir.
Uma busca direta, imediata mesmo, devemos fazê-la no seio de Deus. Ele sim é a própria completude. Um deus muito além das representações fragmentárias e humanas. E com esse deus me abro e dispo meu corpo e minha alma. Tiro a roupa e me entrego. E aproveito para lhe pedir um pouco de bebida, que ninguém é de ferro. E ele consente, de puro amor.

© Evaldo Balbino 2018

domingo, 17 de junho de 2018

Tia Turca

By Maurício de Sousa

Evaldo Balbino

No início de cada aula, na 2ª série da Escola Estadual Assis Resende, copiávamos do quadro a ficha escolar composta pelos nomes do estabelecimento, da diretora, da professora, da série e do aluno. Essa atividade se repetia de segunda a sexta-feira toda semana. Com isso os cadernos ficavam bem arranjados e, diziam, íamos afinando a escrita. O nome da professora não se perdeu da minha memória: Maria Salomão. Mas o que ficou mesmo foi o Tia Turca, pois assim era que a chamávamos.
Abrimos aquele ano letivo de 1985 no prédio que era o Ginásio Nossa Senhora da Penha, pois o Grupo Escolar Assis Resende estava em reforma. Só alguns meses depois é que fomos para o antigo edifício lá no alto da cidade. Antes eu gostava de correr pelos corredores do ginásio, mas meu sonho mesmo eram as tábuas-corridas do Assis Resende. Meus pés concretizaram isso quando professores, alunos, móveis, livros, papéis e tudo o mais fomos transportados para a escola anciã. Chão novo, tintura renovada, jovens bancos e carteiras, uma biblioteca com livros novinhos, janelas de madeira e vidro abertas com ares antigos. E o chão de tábua-corrida, assoalho correndo sobre um porão escuro que se via pelas frestas. E eu vislumbrando meu medo escondido lá embaixo.
Tia Turca se mudou conosco para a velha-nova edificação. Nossa sala de aula ficava do lado de cima do prédio, ladeando com a Santa Casa e com o Necrotério. E na escola vicejavam saúde e vida de meninos cheios de agitação para dar e vender.
A professora era brava, sabia domar a desordem dos educandos com olhos graves e austeros gestos. Mas também alcançava nos amar com sentimentos nobres. Não tinha jeito de não aquietarmos o facho diante dela e do mesmo modo não havia como não gostarmos do seu jeito afável de cobrança. Copiava as lições no quadro e depois ia passando pelas carteiras, tirando dúvidas, apondo outras informações, intervindo nas dificuldades dos nossos passos. Hoje repasso o sério trabalho que ela fez conosco naquele ano. Sei deveras que ela contribuiu com a construção das bases da minha cultura e com as de meus colegas.
De vez em quando nos levava para a biblioteca, onde eu me deliciava com os livros de literatura que tinham acabado de chegar à escola. Foi ali, nessa época, que li A arca de Noé, de Vinicius de Moraes. Na capa da edição, uma montanha com a arca no topo e com muitos, muitos animais por todos os lados, nas escarpas descendo, sobre a arca, no ar, alguns até quase indo para além das bordas da portada. Foi também ali que minha gula e minha devoção conheceram O menino poeta de Henriqueta Lisboa e o Erico Veríssimo para crianças: viajei pelas aventuras de Tibicuera, escutei a música na barriga do urso, brinquei com os três porquinhos, conheci a vida do elefante Basílio e, mais que tudo, participei das aventuras do Avião Vermelho.
Certa vez minha mãe não pôde ir à reunião de pais para pegar o boletim com o resultado bimestral. Um boletim num envelope bonito, onde eu havia colado Magali ofertando uma caixa de bombons vazia para sua mãe. Que era dos bombons?! O gato comera, ou melhor, a gulosa Magali os tinha consumido. Mamãe acabou indo dias depois daquela reunião. Quando ela chegou à escola, nossa aula estava acontecendo justamente na biblioteca. Bateu à porta, e tia Turca foi recebê-la. Ambas passaram entre as mesas dispostas irregularmente pela grande sala ao lado das prateleiras, e os olhos de mamãe me procurando entre tantos meninos até me encontrarem, atentos.
As duas pararam rente à mesa próxima ao quadro. Enquanto lhe entregava o documento, a professora foi tecendo elogios ao aluno que eu era e dando-lhe parabéns por educação tão bem cultivada lá no canteiro do berço. Os olhos de minha mãe me olharam, brilhando de alegria e ao mesmo tempo alfinetando amorosamente o meu frágil corpo, porque discordavam até certo ponto do que dizia a mestre naquele momento. Era como se estivesse pensando: “Ah, se a dona Maria comesse um saco de sal junto com esse menino todo dia! Ia ver como ele corta uma bagunça que não tem jeito!”.
Bem convencido, no entanto, eu sabia que minha mãe voltaria orgulhosa para nossa casa. Mesmo pensando assim, ela me esperaria com o boletim alegre em suas mãos.


© Evaldo Balbino - 2018

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Que tiro foi esse? O vampiro, os patos e as panelas na cara da política e da sociedade brasileiras






Evaldo Balbino



Que tiro foi esse?! Não, não vou falar aqui no tom jocoso e na piada pela piada do funk que tomou as pessoas pelo Brasil afora nestes últimos meses. Rir por rir também é bom, nosso corpo e mente agradecem. Mas nossa mente e corpo precisam também, e sobretudo, de bombardeios ferinos, de arte que se faz com estética e ética.

O tiro foi dado neste Carnaval de 2018 pela Paraíso do Tuiuti. Com o tema do trabalho escravo na história do mundo e do Brasil, a escola de samba arrebatou a atenção de muitos, chegando a ser o assunto do momento. Graças a Deus!!! Coisas boas ainda atraem as pessoas.

Levando ao desfile o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, o carnavalesco Jack Vasconcelos faz uma pergunta retórica e joga na cara do mundo um NÃO retumbante.

Os carros alegóricos fizeram desfilar na Sapucaí a memória triste da opressão que atravessou os humanos em suas relações de poder. Mas a tristeza dessa memória não é motivo para lamentações e muito menos para esquecimento. Muito pelo contrário. A arte vem com toda força para nos dizer que o passado e o presente devem ser passados e repassados a limpo, criados e recriados, encenados e reencenados. E nessa performance memorialística nós podemos pensar, sentir, refletir nos modos como negar os males de nosso mundo e como construir futuros. Nega-se não para olvidar, mas no sentido de questionar para fazer diferente.

Alguns chegaram a dizer, e não deixam de estar certos, que a escola de samba trabalhou com generalizações quando, por exemplo, abordou diferentes culturas do continente africano. Isso é fato. É um fato que, porém, não tira o mérito da Paraíso do Tuiuti em denunciar que a escravidão não acabou no mundo. E muito menos no Brasil.

O enredo foi se concentrando aos poucos na história do nosso país. E chegamos, mais ao final, ao momento sociopolítico e econômico que vivemos em nosso país: um momento de retrocesso nas conquistas sociais.

A ala dos Guerreiros da CLT bradava carteiras de trabalho, denunciando-se com isso os abusos a que os trabalhadores têm sido cada vez mais submetidos.

O último carro alegórico nos trouxe um lance definitivo – o presidente vampiro e diabólico na sua pomposa faixa presidencial. Faixa essa arrebatada num golpe de estado. No topo de um carro chamado justamente Neo Tumbeiro, uma reatualização do navio negreiro denunciado por Castro Alves, essa encarnação do presidente Michel Temer nos olhava com olhos ávidos e um rosto branco entre dólares.

Na parte mais baixa desse carro, fantoches eram “manifestoches” batedores de panelas. Manifestantes sem vontade própria. Patos com cifrão nos olhos, panelas sendo batidas em suas mãos, todos eles eram marionetes dos altos poderes industriais, jurídicos e midiáticos. E todos, nessa dança política vergonhosa do Brasil, manipulados sob a batuta do grande vampiro Michel Temer, como representado.

Apareceram panelas que, bem no seu dentro, traziam colados papéis com o dizer “Fora, Temer!”. E isso, mesmo dentro das panelas, não foi feito “por debaixo dos panos”. Não, não foi feito! Muitas personagens marionetes eram submetidas pelos atores, e estes artistas faziam questão de mostrar o de dentro das panelas para as pessoas e para as câmeras de televisão. Na arte a liberdade pode gritar, atirar, arremessar, jactar, jogar. Lançar aos quatro ventos o que se quer dizer, toda e qualquer palavra presa na garganta.

E nesse momento os comentaristas da Globo quase nada puderam falar. Até então, durante o deslizar do enredo crítico, esses mesmos comentaristas diziam de detalhes sobre o passado do Brasil e do mundo. Agora, no arremate, proferiram generalidades, não arriscando descolar-se muito das figuras da encenação. Falavam de "classe dominante, “faixa presidencial”, "vampirão".  Até mesmo quanto à ala dos manifestantes fantoches, os anotadores ficaram vexados e nem ousaram nomear, para além das figuras, os bichinhos amarelinhos que, em profusão, deslizavam pela Sapucaí. Os comentaristas, coitados, são também escravos. “Escravos" da patroa Globo. Vítimas como muitos de nós de um grande bandido: o grande empresário que paga o nosso salário e que exige que falemos só o que pode ser dito.

O tiro foi dado na Sapucaí. Bem na cara da corrupta política brasileira. Na cara dos grandes empresários. Na cara das mídias-níqueis. Na cara dos altos juristas sanguessugas. Na cara, por fim, das muitas pessoas alienadas das classes médias; das que, batendo panelas, julgaram-se donas de si mesmas quando, na verdade, eram títeres nas mãos dos que de fato detêm os poderes em nosso país.



© Evaldo Balbino 2017



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O que cintila no escuro

Evaldo Balbino

          Meu amigo Edilson Miranda postou no Facebook um poema seu intitulado “Às palavras surgindo das trevas”. O texto fala do amor que vem e atormenta, do amor que chega e causa desequilíbrio, espera, ansiedade, desejo incontrolável de amor e de amar.
          Na ilustração, uma cabeça cheia de palavras, atravessada vertiginosamente de letras tresloucadas numa torrente forte, invencível. E da boca semiaberta essas palavras e letras saem, também numa corrente irreversível para o mundo. Assim é o poema, uma enxurrada de lamento, de questionamento sobre o porquê de o amor chegar tão doloroso por justamente causar dor e excitação que incomodam. Não sei de quem é o desenho. Se do autor do poema ou se de outra pessoa atormentada por palavras ou, por que não?, também pelo amor.
          Quem ama fala. Seja com gestos ou palavras, claros ou esmaecidos. Quem ama se denuncia, sem mais nem menos, mesmo quando não quer. Uma fuga do olhar, um pensar que não para facilmente, uma obsessão do pensamento sem fim, o recuo do corpo, o desejo de se ver bonito diante de quem se ama. E quando fala com palavras, o amor também titubeia ou é firme, relutante ou decidido. De qualquer modo, calmo ou irrequieto, tímido ou atrevido, o amor é coisa que nos torna incomodados, é motor que nos move ao nosso bel-prazer. Nesse sentido, o amor pode se confundir com a paixão, sem percebermos relação de anterioridade e posterioridade entre esses dois sentimentos.
          Falemos aqui especificamente do amor que nos invade, que chega e nos queima o nosso frio sem pedir licença. Falemos a partir das palavras do referido poema de meu amigo.
          A Primavera, a alegria, o perfume, as cores, a leveza, a brisa, o acalento. Tudo isso poderia ser os modos de o amor se achegar a nós. E ele de fato chega por esses caminhos. Mas não só assim. Outras alamedas lhe são também passagem. Outros caminhos servem também aos pés amantes e furtadores; a esses pés que vêm e roubam, na calada da noite, a nossa alma, o nosso corpo.
          Aí, nesse ponto, quando o ladrão de nossas vontades se aproxima sem pedir consentimento, amor e paixão se confundem. A afetividade que tem o outro em conta, que se preocupa com seus sentimentos, com seu estado de espírito e corpo, com sua vida se vai bem ou não, com seus problemas – essa afetividade não vai embora, não se apaga na escuridão do egoísmo. É nesse mesmo ponto de advento inconsentido do amor que o altruísmo não morre, não desaparece, mas convive de modo tenso com um apego próprio, com a obsessão de se satisfazerem os próprios desejos. Amamos o outro; ele é objeto do nosso desejo. Sem ele, ficamos sem chão, nossos pés caminham descontrolados, e nós naquela ilusão – boa ou má (depende do ponto de vista) – de que sem o ser amado não temos arrimo. E o nosso mundo parece querer desabar a qualquer momento.
          A erupção em nós se expande, o vulcão transborda e um fogo ardente alastra-se em nossa existência corporal e espiritual, como se diz no poema do meu amigo. Essa chama nos "queima por dentro".
          Nesse sentido, o amor, vindo por esses caminhos enviesados, sem pedir licença, bem na calada da noite, é um ladrão astuto e fascinante.  Esse mesmo amor nasce do escuro em nossas vontades. Não vem de uma arbitrariedade do indivíduo. Viramos marionetes, títeres avassalados. É desrazão tudo isso?! Que seja. Também de ilusões nos erigimos.
          Vê-se, então, que é também das trevas que vêm o calor, a erupção, o fulgor. O nosso não consentimento não basta para que o outro não nos invada, nem que seja em pensamento. Nosso poder de relutar existe, mas arrefecido. Chega em muitos casos a quase se apagar. Fica sem luz até. A escuridão, no entanto, não é ausência de luz. Ela é a presença do fogo. O escuro também ama. Do mesmo modo queima.
          O poema do meu amigo me fez pensar tudo isso. Ilusões!? Elucubrações de um mero ser que não é psicólogo, que sequer consultor sentimental chega a ser?! Que seja tudo isso. Palavras me atravessam. E ciência nenhuma me serve nessa hora de enxurrada me lavando e levando.
          Palavras me carregam, como os sentimentos que me domam e nos domam a todos. Mais fortes são essas doidices em alguns momentos, mais brandas em outros. Alguém já deve ter escrito que nem só de razão vivem as pessoas, mas também de toda as loucuras possíveis desta vida. Se ninguém escreveu isso, escrevo agora.

© Evaldo Balbino 2018