Do livro Moinho

Do livro Moinho

domingo, 12 de novembro de 2017

Vade retro, preconceito!




Na igreja cheia, outro dia, fui obrigado a escutar o ancião proclamando o ódio.


O que chamo aqui de ancião é um cargo, título dado numa igreja ao pastor-mor, padre-mor, cooperador-mor... e os nomes vão variando de denominação para denominação religiosa.


O ancião, em sua sabedoria, cancelou um momento glorioso em que fiéis (a Deus e não ao homem – pelo menos assim desejo) agradeceriam à divindade por dádivas recebidas. Acho lindo esse momento: aquele em que, com lágrimas alegres e júbilo sem par, as pessoas vão lá adiante aos microfones e propalam sua fala aos quatro ventos, dizendo que Deus é O que opera em nossas vidas.


Esse momento foi interrompido. Isso porque o ancião achou por bem discursar sobre algo muito sério com a Igreja. E falou sim de algo sério.


Em suas palavras, “o mundo está pervertido, e agora, nas escolas, querem apregoar a nossos filhos e netos a tal da ideologia de gênero”.


E continuou a sua rancorosa homilia, numa mistura terrível de conceitos, não sabendo discernir “gênero” de “sexualidade”. “Nascemos homem e mulher – está escrito isso no livro de Gênesis. Assim nascemos, e qualquer outra possibilidade é pecado, é fuga da natureza de que somos constituídos divinamente. Agora querem que o indivíduo fique exposto a diferentes experiências sexuais, para depois decidir o que vai querer na vida”.

Com tais palavras e outras mais confusas ainda, sua voz foi ecoando brava pela igreja, reboando como se fosse a voz de Deus pela abóbada do templo. Um deus terrível, de leis e de guerra, de ira e de fúria. E acrescentou que “não devemos, de modo algum, permitir que professores ensinem esse absurdo nas escolas”.

Deu-me vontade de perguntar a esse senhor (tão lido, tão cheio de formação acadêmica) se não seria melhor, primeiro, ele se informar mais sobre o que é ideologia de gênero, o que é sexualidade e o que é, mais especificamente, sexualidade humana. Tive vontade de dizer-lhe que as questões de gênero podem até abarcar as de sexualidade, mas que vão além destas. Sabendo discernir tudo isso, talvez ele continuasse com seus preconceitos, mas pelo menos não faria mistura tão confusa numa única panela. E a sua panela, por sinal, não é a das bruxas, mas sim aquela em que estão condenadas ao cozimento eterno (do inferno!) as vozes heréticas dos que estudam as questões de gênero e denunciam as opressões históricas que muitos sujeitos já sofreram por não se enquadrarem em parâmetros milenares.

Além disso, deu-me vontade de perguntar a esse mesmo senhor o que ele faria em sala de aula, sendo professor de crianças e/ou adolescentes, se tivesse que lidar com gêneros que não os tradicionais masculino e feminino, homem e mulher. Por acaso ele bradaria com a Bíblia em riste sua voz contra as diferenças? E que mau uso estaria fazendo ele da Bíblia! Esta coletânea linda de livros que, via de regra, se usa como espada cortante e perversa!

Poderão dizer que não fui obrigado a ouvir tudo isso, que eu poderia ter saído da igreja naquele momento, que se fiquei ouvindo foi porque quis. Poderão até aplicar a mim aquele velho ditado: “Os incomodados é que se retirem!”.

Mas escrevo estas linhas é para defender o desejo de qualquer pessoa de estar congregada num templo, naquela busca de união entre os seus pares que querem o sagrado. Cada um ali, roçando sua fé no outro, fazendo isso no intuito de criar mais forças para sentir as seivas espirituais de luz e vida. Ninguém é obrigado a ir a um templo, mas tem o direito de fazê-lo. Como fazer isso, no entanto, se ali mesmo na igreja muitas vozes oficiais se insurgem contra esses mesmos sujeitos desejantes de Deus?!

Do jeito que as coisas quase sempre caminharam e ainda caminham nos santuários, terminamos por ver aquilo que profetas (do porte de um Isaías, Jeremias ou Ezequiel) já denunciavam em seus discursos poéticos e firmes: certos pastores acabam por espalhar as ovelhas ao invés de reuni-las. Aliás, essa denúncia do mesmo modo foi atribuída ao amoroso Cristo pelos escritores dos quatro evangelhos.

Também é nas mesmas igrejas que sempre aparece o discurso – divulgado ou tácito – da exclusão religiosa. Quase sempre aquele pensamento do “aqui” e do “lá de fora”, de que quem está na igreja tem Deus e de que os que estão fora dela passam ao largo das vestes divinas. Sempre, quase sempre, aflora a ideia de que existem por um lado os fiéis salvos e por outro as criaturas; por um lado os homens naturais com seus pecados, por outro os homens espirituais, os despidos das carnalidades que devem ser esconjuradas.

Ai, meu Deus! Até quando tanta divisão, tanto binarismo!?

Uma vez ouvi um padre dizer que não se deve levar a palavra de Deus a um cigano, pois ciganos são terríveis. Ora essa, é bom mesmo que nem se leve tal palavra! Deixemos o cigano (quaisquer ciganos) viver a(s) sua(s) experiência(s) religiosa(s) ao longo da vida. Sabemos abundantemente o que essa tal ideologia de levar a palavra de Deus muitas vezes aprontou pelo mundo afora. Quantas atrocidades, quantas perseguições, quantos massacres físicos e culturais ocorreram!?

E o que as religiões deveriam ser acabam não sendo: religare. Muitas vezes (não sempre, graças a Deus!) nos separam do amor de Deus e nos separam dos nossos próximos, do mundo, da vida bela em suas diferentes manifestações.

Parece que a prática do exorcismo, tão maléfica e mal praticada em diversos momentos da história da igreja católica, deve voltar agora. É urgente que ela volte. Mas os demônios a serem exorcizados são tão nossos, cotidianos: os diabólicos preconceitos, as danosas divisões e exclusões, os discursos de ódio, as práticas de terror, a recusa violenta das diferenças. Tudo isso e muitos outros males que as sociedades humanas foram desenvolvendo. Tudo isso é sim uma legião, a verdadeira legião que deve ser combatida.

Combatida inclusive aqui no Brasil, onde assistimos cada vez mais, e principalmente nos últimos anos, aos discursos de ódio e preconceitos ganhando ares de legalidade, defendidos dentro do âmbito legislativo de nosso país. Não é à toa que, semana passada, Judith Butler, filósofa norte-americana especialista em estudos de gênero, foi vítima de agressões verbais e físicas no aeroporto de Congonhas, perpetradas por fundamentalistas.

Os tempos são cada vez mais temerosos. Não se trata aqui de idealizar o passado. Onde o homem já pisou, males abrolharam. O que nos assusta é eles germinarem, e com muita força, num mundo (e aqui não falo só do Brasil) onde já passamos por vastas experiências de suposto amadurecimento democrático publicado aos quatro cantos.

O tempo vai passando e deixando lições. Mesmo assim, continuam se erguendo espinhos. Exorcizemos tais demônios!



© Evaldo Balbino