Do livro Moinho

Do livro Moinho

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O seduzido

Evaldo Balbino




Estou eu apenas.
A-penas procurando a poesia
que mia,
felina manhosa,
sob os cobertores do cotidiano.

Estou eu quase poético,
sentindo o calor dela
sobre a cama da vida.

Querida, eu digo profético,
me amarás tão bela,
coberta de sentidos
e gemidos diversos.

Estou eu assim poético,
verbalmente seduzido
pelas carícias de teus sentidos
que me arrancam de mim.

Somos tu e eu agora.
Quem és tu, quem sou eu?
Não sei.
Para se amar não tem hora.

(Balbino, Evaldo. Filhos da pedra. São Paulo: Nelpa, 2012. p. 19)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Mais simples


Evaldo Balbino

Outro dia, na fila do hipermercado, uma mulher me atendia solícita, sorridente. Então me perguntou se eu queria parcelar o valor da compra.
"Gostaria sim", eu lhe disse. "Sei que nem tudo vai ser possível, mas o que for de bazar e pet dá pra dividir. Sempre divide. E vai ajudar no meu bolso, na conta no fim do mês".
Ela sorriu de novo e foi fazendo lá na máquina suas operações aparentemente fáceis, complicadíssimas para o meu próprio entendimento. Para minha surpresa, o computador dividiu praticamente tudo em gordas três parcelas sem juros. Diante do meu espanto, a funcionária disse alegre:
"Engraçado, nem sempre divide quase tudo assim! Esse sistema não é entendível mesmo!"
Devolvi-lhe, agradecido, o sorriso. E gostei muito daquele "entendível" solto, sem peia nenhuma, livre de amarras. O seu falar foi doce, foi um ar bom de se respirar no meio de tanta gente, numa fila infindável e estressada atrás de mim.
Na saída do hipermercado, vi dois cães namorando. Magros, sujos, mas alegres em seus volteios, em seus jogos de sedução sem receios. Enfrentando uma vida seca, lá estavam eles com vida e fulgor.
Cheguei a casa e quis ter uma vida assim. Não na secura ou na umidade, não numa fila ou fora dela. Porém uma vida simples, como as palavras daquela mulher. Uma vida concreta, instintiva como as dos cães em seu idílio no estacionamento do shopping.
Então sonhei. Deitado sobre a cama, acordado, sonhei que eu era outro. Que dizia coisas simples, palavras sem freios. Sonhei que andava sem regras. Que amava como um cão.
A vida poderia ser mais simples. Não poderia? Deveria ser menos cheia de esquisitices, de dificuldades desnecessárias, de palavras ensaiadas, de poses para retrato.
Enquanto muitas vezes busco palavras com que dizer as coisas deste jeito e não de outro, enquanto me perco procurando gestos mais adequados para transmitir a alguém o sentimento mais preciso, enquanto tento isso ou mais aquilo, a vida vai passando sem pensar em si mesma. E vou vendo ao meu redor fatos, pessoas, bichos, muitos seres vivendo de modo mais espontâneo, mais leve, mais livre. Pelo menos essa é a minha sensação.
Então fui possuído por um espírito benfeitor. Sobre a cama fui visitado pela Vontade com "v" maiúsculo, a Vontade imensa de não me prender a gramáticas, de dizer desdizendo, de fazer desfazendo, de andar por caminhos diferentes e não usuais.
E à força de sonhar assim, fui ganhando asas. O que eram raízes prendendo o meu corpo no lençol foi se transformando em asas: estas palavras que me pastoreiam altas, estas linhas que me guiam nuvens. E vou escrevendo, desde então. Vou escrevendo ao léu, ao prazer que me toma de falar. No prazer de viver instintivamente. De modo entendível e transparente.

© 2017 Evaldo Balbino

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

As mãos de minha mãe

Evaldo Balbino

Untitled (Undated) - by José de Almada Negreiros (1893-1970) - Calouste Gulbenkian Museum, Modern Collection, Lisbon, Portugal - Material: Oil on card Collection: Private collection on deposit at Calouste Gulbenkian Museum - Foto de Pedro Ribeiro Simões, 2017

Cozinhava grelos de chuchu com ovos como quem passa as mãos pelos cabelos num ato de vaidade. Vaidade simples, pura e necessária. Necessidade advinda da beleza dos cabelos brancos esvoaçando-se ante os olhos, demandando uma contenção atrás de orelhas antigas e sabidas. Pureza e simplicidade existentes nos modos de ser tão singelos, como eram os dedos das mãos de minha mãe.

Muitas vezes vinham machucadas suas mãos por haverem cortado samambaia, muchoco e serratucano nos brejos e nas margens dos cor’gos da região. Vinham machucadas e felizes, pois operariam a mágica de uma culinária inimitável: comeríamos todos, debaixo das asas de uma galinha protetora, aquele guisado que ela sempre improvisava com maestria. Pedaços de ovos, pimenta, talos de couve, cebolinha e salsinha – tudo era bem-vindo nos banquetes de nossas bocas.

Limpavam frangos aos domingos, naqueles domingos em que nos permitíamos certas regalias à mesa. Limpavam frangos as suas mãos; e faziam questão de preparar os vinte e um pedaços, contanto com os pés e a cabeça, para que toda a família fosse alimentada. Éramos dez. Mais ou menos dois pedaços para cada um. O pescoço era dela, pois fazia questão de degustá-lo. Eu insistia em dar-lhe os meus pedaços, pois meu estômago era fraco para carnes. Então, com carinho e esmero, suas mãos fritavam dois ovos para o filho caçula tão frágil.

Houve tempos duradouros em que suas unhas reclamavam de um sabão agressivo. Unheiros flagelando mãos tão hábeis. Um pus de pura luta entre tecidos e vida. O Sabão do Reino que usava corroía a sujeira de roupas suadas. Roupas que ela molhava, esfregava, batia na pedra, quarava, enxaguava (uma, duas, três vezes), para depois secá-las ao sol. Expô-las como se expõe um troféu após uma batalha inexorável. Nesta faina sem fim, as unhas de minha mãe lamentavam.

Sempre curtas, como ainda o são. Sempre curtas, o que era de uma beleza indizível. Uma vaidade feminina discreta, rude, pouco encontrada em muitas mulheres. E não eram machas, as unhas de minha mãe. Eram femininas nas pontas de dedos tão ásperos. Parecia não crescerem nunca. Discretas, sempre limpas por água e sabão, foram elas um dia salvas por uma dessas receitas de ervas e pela vontade de Deus, pela sempre vontade de Deus como ela fazia e faz questão de dizer-nos e de propagar aos incrédulos.

Suas mãos me contavam histórias. Eu as lia como se fosse um cigano. Não eram futuros o que me diziam as duas palmas. Eram imperiais caminhos já traçados nas estradas de terra do Ribeirão de Santo Antônio e depois numa Resende Costa bem pequena, numa casa erguida com tijolos e sonhos, numa rua da periferia, de terra vermelha e infância.

Minha mãe na roça, entre milhos, abóboras, palhas de feijão e canções: “Ai menina, meu amor! / Minha flor no cafezal...”. Seus lábios sem batom me cantavam música tão sublime como se estivessem entoando hinos de louvores a Deus. E entoavam! Seus lábios cantavam como cantam os lábios de mulher da roça e não de uma sereia devoradora. Cantavam estendidas canções como os fios estendidos de Ariadne a guiar Teseu pelo labirinto de Creta. Os lábios a conduzir-me pelos labirintos. Aqueles nos quais nos perdemos todos.

Minha mãe cantava, como ainda canta e sempre cantará. Mulher do povo, daquelas que se dão ao luxo de às vezes comerem com as mãos na cumbuca, no coité trazido pelos seus homens de grotas da redondeza. Mulher do povo a brigar com o seu homem quando uma necessidade insiste, quando o machismo excede. Daquelas que diziam e dizem ao marido: “Eu gosto de você e sei que você gosta de mim. Gosto de você, apesar de tudo. Eu gosto e sei que insisto, quando muitas vezes deveria deixar essa vida ao seu lado. Mas o que fazer? O que fazer se gosto de você e se tenho filhos que nos amam?”.

Parecendo antiga, minha mãe era moderna. Dominando e fingindo ser dominada, suas mãos tinham um poder de glória. De domar o marido com carícias e brados. De fazê-lo retroceder nas investidas impensadas nas coisas da vida. Amando meu pai com suas mãos sofridas, ela calava o homem nas horas nuas da existência.

Oh, meu Deus, por que o passado insiste? Ainda bem que este passado permanece! Viva, minha mãe ainda canta.

Suas mãos teciam colchas e cosiam nossas calças e camisas. Os dedos ágeis entre agulha e linha não permitiam que ficássemos desnudos, que ficássemos à mercê do frio que atravessava e ainda atravessa as pedras de Resende Costa, principalmente no mês de julho. O que suas mãos costuravam eram as nossas vidas. Remendavam o que ameaçava romper-se. Seguravam-nos, como Deus segura a Terra no espaço.

(BALBINO, EVALDO. Móbiles de areia. Resende Costa – MG: Amirco, 2012. p. 71-73)