Do livro Moinho

Do livro Moinho

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O que cintila no escuro

Evaldo Balbino

          Meu amigo Edilson Miranda postou no Facebook um poema seu intitulado “Às palavras surgindo das trevas”. O texto fala do amor que vem e atormenta, do amor que chega e causa desequilíbrio, espera, ansiedade, desejo incontrolável de amor e de amar.
          Na ilustração, uma cabeça cheia de palavras, atravessada vertiginosamente de letras tresloucadas numa torrente forte, invencível. E da boca semiaberta essas palavras e letras saem, também numa corrente irreversível para o mundo. Assim é o poema, uma enxurrada de lamento, de questionamento sobre o porquê de o amor chegar tão doloroso por justamente causar dor e excitação que incomodam. Não sei de quem é o desenho. Se do autor do poema ou se de outra pessoa atormentada por palavras ou, por que não?, também pelo amor.
          Quem ama fala. Seja com gestos ou palavras, claros ou esmaecidos. Quem ama se denuncia, sem mais nem menos, mesmo quando não quer. Uma fuga do olhar, um pensar que não para facilmente, uma obsessão do pensamento sem fim, o recuo do corpo, o desejo de se ver bonito diante de quem se ama. E quando fala com palavras, o amor também titubeia ou é firme, relutante ou decidido. De qualquer modo, calmo ou irrequieto, tímido ou atrevido, o amor é coisa que nos torna incomodados, é motor que nos move ao nosso bel-prazer. Nesse sentido, o amor pode se confundir com a paixão, sem percebermos relação de anterioridade e posterioridade entre esses dois sentimentos.
          Falemos aqui especificamente do amor que nos invade, que chega e nos queima o nosso frio sem pedir licença. Falemos a partir das palavras do referido poema de meu amigo.
          A Primavera, a alegria, o perfume, as cores, a leveza, a brisa, o acalento. Tudo isso poderia ser os modos de o amor se achegar a nós. E ele de fato chega por esses caminhos. Mas não só assim. Outras alamedas lhe são também passagem. Outros caminhos servem também aos pés amantes e furtadores; a esses pés que vêm e roubam, na calada da noite, a nossa alma, o nosso corpo.
          Aí, nesse ponto, quando o ladrão de nossas vontades se aproxima sem pedir consentimento, amor e paixão se confundem. A afetividade que tem o outro em conta, que se preocupa com seus sentimentos, com seu estado de espírito e corpo, com sua vida se vai bem ou não, com seus problemas – essa afetividade não vai embora, não se apaga na escuridão do egoísmo. É nesse mesmo ponto de advento inconsentido do amor que o altruísmo não morre, não desaparece, mas convive de modo tenso com um apego próprio, com a obsessão de se satisfazerem os próprios desejos. Amamos o outro; ele é objeto do nosso desejo. Sem ele, ficamos sem chão, nossos pés caminham descontrolados, e nós naquela ilusão – boa ou má (depende do ponto de vista) – de que sem o ser amado não temos arrimo. E o nosso mundo parece querer desabar a qualquer momento.
          A erupção em nós se expande, o vulcão transborda e um fogo ardente alastra-se em nossa existência corporal e espiritual, como se diz no poema do meu amigo. Essa chama nos "queima por dentro".
          Nesse sentido, o amor, vindo por esses caminhos enviesados, sem pedir licença, bem na calada da noite, é um ladrão astuto e fascinante.  Esse mesmo amor nasce do escuro em nossas vontades. Não vem de uma arbitrariedade do indivíduo. Viramos marionetes, títeres avassalados. É desrazão tudo isso?! Que seja. Também de ilusões nos erigimos.
          Vê-se, então, que é também das trevas que vêm o calor, a erupção, o fulgor. O nosso não consentimento não basta para que o outro não nos invada, nem que seja em pensamento. Nosso poder de relutar existe, mas arrefecido. Chega em muitos casos a quase se apagar. Fica sem luz até. A escuridão, no entanto, não é ausência de luz. Ela é a presença do fogo. O escuro também ama. Do mesmo modo queima.
          O poema do meu amigo me fez pensar tudo isso. Ilusões!? Elucubrações de um mero ser que não é psicólogo, que sequer consultor sentimental chega a ser?! Que seja tudo isso. Palavras me atravessam. E ciência nenhuma me serve nessa hora de enxurrada me lavando e levando.
          Palavras me carregam, como os sentimentos que me domam e nos domam a todos. Mais fortes são essas doidices em alguns momentos, mais brandas em outros. Alguém já deve ter escrito que nem só de razão vivem as pessoas, mas também de toda as loucuras possíveis desta vida. Se ninguém escreveu isso, escrevo agora.

© Evaldo Balbino 2018