Do livro Moinho

Do livro Moinho

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O nosso jardim de Cecília (canto a quatro vozes)


By Maria Ângela Haddad Villas e Roberto Caldas - 1985


O principal de tudo era o sapo jardineiro. Chapéu e calça azuis, uma camisa vermelha com esmaecidos laivos de branco. O chapéu era meio mexicano, para proteger do sol: rebaixado na cabeça e de abas razoavelmente largas. As cabeças dos sapos já são mesmo achatadas. Talvez fosse por isso que o chapéu era assim. E o sapo de que falo era verde. Nunca vi de verdade nenhum dessa cor. Os sapos da minha vida sempre foram de um tom mais sério, fechado. Me apaixonei pelo sapo que, sei muito bem, nunca viraria príncipe. Nem precisava virar.

As flores eram várias e muitas. De cores que eu nunca imaginara habitassem em flores. Rosas, vermelhas, azuis, amarelas, verdes, anis, violetas, laranjas e outros tons mais que já se misturaram nas memórias dos meus olhos. Brotavam do chão como brotam desejos de vida, anseios por alegria e eternidade. As florezinhas e suas folhas enfeitavam a terra e o gramado do jardim.

As borboletas também eram multicores: leves sobre o jardim, levitando entre lavadeiras e passarinhos. Se não fosse o apelo visual aos meus sentidos, eu imaginaria mulheres lavando roupas num riacho, bem no debaixo de pássaros folgazões. Mas meus dedos tocavam o livro, meu corpo sentia seu cheiro, meus olhos beijavam sua página colorida. E o que eu via eram insetinhos alados sobrevoando como helicópteros vivos as águas de uma fonte azul e branca. Com seus dois pares de asas transparentes, com seu corpo compridinho e cheio de anéis, cada uma das lavadeiras dava voltas pelo jardim e retornava sempre em voos rasantes para a fonte fresca e convidativa.

E os ovos verdes e azuis nos ninhos? Onde estavam? Lá jaziam, porém num só ninho, bem em cima do braço da estátua de primavera, uma menina linda, fantasmal, com cabelos longos e face branda. Toda ela de pedra, talvez, mas parecendo macia na sua alvura quase transparente. Sobre a sua cabeça, um pássaro descansando de voar. Em cada orelha uma flor, possivelmente furtadas por ela mesma do jardim. Ou então não tenha sido roubo, e sim oferta amável do sapo jardineiro e dócil. A menina de pedra segurava um balde também pétreo, do qual jorrava a fonte de água azul e branca.

Vagando sobre a mureta da fonte, o caracol namorava a queda d’água. Tomava sol úmido, esperando pelo arco-íris que ainda não aparecera. O raio de sol já atravessava as águas, só que o arco-celeste trazia ares tímidos, hesitando em mostrar-se ao caramujo exibido e celestroso. As antenas da lesminha estavam ligadas, voltadas para o ar líquido e levemente rumoroso à beira da fonte, esperando por mais vida onde a vida já era muita.

O lagarto, também verde, andava entre o muro e a hera. Do mesmo modo nunca vi, de verdade, lagartos verdes. Nunca fui apresentado a nenhum de carne e osso. Porque os répteis são vertebrados, aprendi isso desde cedo. E o verde lagarto, embrenhando-se pela trepadeira, sentia cada tijolo frio do muro, que era coberto de musgo num setembro que ia entrando. E ali o bichinho se misturava ao verde da planta.

O formigueiro, bem perto de tudo, era cerro alto galgado por formigas incansáveis. Em fila indiana, subiam e desciam as obreiras. Perto do sapo e do formigueiro, um grilinho dentro do chão, vindo de um buraquinho da terra e espreguiçando-se do sono tranquilo que tivera lá no escuro da toca. Era um grilinho preguiçoso, se podia ver.

Sentada no muro da fonte, ao lado da estátua de primavera, a cigarra tinha as pernas cruzadas onde apoiava seu violão. Ela e o instrumento eram uma coisa só, pura música e cor e vida. De olhos fechados, ela parecia sonhar com o que cantava. Sua boca fundava mundos, ditava o compasso da existência. O sapo, as flores, as borboletas, as lavadeiras, os passarinhos, os ovos verdes e azuis nos ninhos, a estátua de primavera, o caracol, o raio de sol, o lagarto entre o muro e a hera, o formigueiro, o grilinho e a cigarra cantando eternamente. Tudo isso era fruto do canto da cigarra.

E a cigarra verdadeira, voz humana poetizada, era Cecília Meireles no seu canto. A poeta leiloava com palavras um jardim e as belezas dele. E assim ela me vendeu a beleza para a vida inteira. Não somente ela, mas também Maria Ângela Haddad Villas e Roberto Caldas, os ilustradores que tornaram mais pictural ainda o poema da autora que me enfeitou a infância.

© Evaldo Balbino 2018

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A nossa história em cinzas: o perigo do esquecimento






No fim do dia de ontem, na Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro, o Museu Nacional em chamas mostrou com evidência um país que abandona todos os dias as suas culturas. Já vítima há tempos de uma degradação paulatina (com falta de verbas governamentais, de reformas adequadas, de financiamentos etc.), o museu viveu ontem o ápice a que pode chegar um desgoverno, um barco aparentemente sem capitão e sem leme que demonstra ser o Brasil.

Aparentemente sem capitão e sem leme é o nosso país. Pois existem sim capitães lá em Brasília e em todas as outras instâncias executivas da nossa nação. O barco, que parece à deriva, na verdade segue rumos de acordo com a sede de dinheiro e de poder dos tais capitães. Os umbigos dos caciques políticos falam mais alto do que as reais necessidades da civilização brasileira. E são várias essas necessidades, entretanto falo aqui basicamente dos imperativos culturais. Constatar isso me faz ter um sentimento perigoso de frustração e me faz ver as caras de políticos (em panfletos, na televisão e na internet) como figuras reais de seres que utilizam a política como carreiristas e sanguessugas no corpo do povo.

Quem andar pelo Brasil afora terá o desprazer de presenciar o descuido com nossa arquitetura, o desprezo para com nossa memória histórica e cultural. Rios de dinheiros são gastos com eventos populares, com festas de exposição agropecuária, com apoio a torneios esdrúxulos onde animais são objeto de diversão humana, com shows de qualidade duvidosa. Mas pouco ou quase nada se investe, por exemplo, em nossos museus. Há exceções. E, como este substantivo indica, são poucos os casos extraordinários. O desleixo que vemos em nosso país em relação aos bens culturais é estratégia de um governo ao qual interessam o lucro próprio dos seus ocupantes e o lucro das elites endinheiradas daqui e do mundo.

Há quem veja, infelizmente, qualquer museu como coisa do passado. Tal pensamento encara o tempo como se fosse apenas um agora se projetando para o futuro e desdenha tudo o que construiu e constrói constantemente nossa agoridade. Somos o que somos em construção, porque diversos fatores vieram e vêm confluindo para o que estamos vivendo hoje. O esquecimento é um perigo para qualquer cultura. Esquecer é perder a identidade. Esquecer é deixar que males se repitam, que explorações se reatualizem, que os grandes problemas históricos retornem fantasiados ou não com outras máscaras. Se forem as mesmas assombrações do passado a retornarem, muitos as têm por novidade. E isso por desconhecimento da nossa história, da nossa formação cultural.

Estamos, indubitavelmente, num país onde existe um culto ao esquecimento. Habitamos uma nação onde constantemente transformamos em cinzas parte da nossa história ou, às vezes, toda ela. Estamos num país em que forças reacionárias, violentas e perigosas, ressurgem a toda hora como vozes heroicas, como salvadoras da pátria. Como acreditar num país em que muitas pessoas dizem que votarão em discursos militares defensores, por exemplo, de torturas a adversários políticos historicamente conhecidas?

A tática das forças reacionárias de nosso país é o apagamento, o esquecimento. Um povo sem memória é escravo da alienação, é marionete, é fantoche. Um país que não apoia e não reconstrói cotidianamente suas culturas, suas memórias, é um país fadado a ser um barco não à deriva, mas uma nave dominada por capitães que são donos do privilégio econômico.

O incêndio que começou ontem no Museu Nacional e que atravessou praticamente a madrugada do dia de hoje é mais uma demonstração de como nossos governantes zelam pela nossa cultura. Acidentes acontecem. Mas não garantir infraestrutura adequada para se evitar ou combater tais acidentes ou é loucura ou é malícia devotada a interesses espúrios. E eu digo que se trata de malícia e de interesses espúrios. Interesses de governos que passam ao largo de qualquer democracia.
Hoje pela manhã, o museu em cinzas. E para que esta fênix renasça, precisamos dos brasileiros de olhos abertos, precisamos de cidadãos mais antenados com as questões culturais do seu país, necessitamos de eleitores mais atentos e mais ativos para acompanharem a atuação de nossos governantes.


© Evaldo Balbino 2018

domingo, 2 de setembro de 2018

Uma voz para ser ouvida






Evaldo Balbino


Hoje pela manhã me dei um presente. Que a gente deve se amar dessa maneira, presentear-se, e não esperar que apenas os outros nos amem, nos presenteiem. O amor a si mesmo não é egoísmo, e sim um modo de se fazer existir, de se ter autoestima, de um reconhecimento em si dos próprios limites, mas também dos próprios e adoráveis valores.
Nesse amor de mim para mim mesmo, me dei então um presente. Em sintonia com as modernidades, não busquei discos, porque não os tenho; nem CDs, pois estes estavam lá num armário e a preguiça domingueira não me deixou sair da cama. Acessei então o “doutor” Google e naveguei pela modorra dominical.
Na Web, fui direto para as canções do Vander Lee, esta cigarra sem peias que compôs e cantou tão bem nesta vida. As baladas do Vander me embalam, me dançam, me fazem sentir e apreciar a boa poesia na música. Já tive oportunidade de escrever sobre o artista em outro momento, uma hora triste, quando ele faleceu. Fiz isso no dia 08 de agosto de 2016 numa crônica chamada “Trem do desejo pela noite escura”, a qual foi publicada no Jornal das Lajes. Foi-se ainda muito jovem o Vander, mas deixou obra de fôlego e consumada.
A canção que me dei nesta manhã foi nada mais nada menos do que “Onde Deus possa me ouvir”. Foi um vídeo ao que acessei. E um desejo como um rio profundo me atravessou, um silêncio na melodiosa voz do cantautor, seu semblante circunspecto, seu corpo curvando-se nos momentos em que a letra demanda um corpo curvado, a boca se abrindo e os olhos dizendo tudo junto com as palavras. E de vez em quando o cantor sorrindo, pois o sorriso é necessário nesta vida mesmo quando falamos de coisas muito sérias.
E meu corpo mergulhou na música, meu corpo querendo encontrar alguém sem palavras, mas alguém que me oferecesse um colo ou um ombro. Alguém que viesse para ouvir desenganos desta vida louca, de pessoas tristes, de amigos nem tanto amigos assim. Vander me acendeu, mais uma vez, o anseio de eu morar no meu interior, para ali, nos recônditos do meu ser, entender mais as agressões entre as pessoas, os seus combates e debates, os abismos escuros onde se jogam o tempo inteiro.
E se eu encontrasse esse alguém com um ombro amigo, aí eu lhe pediria, como o fez o cantor, pra eu chorar até cansar, pra ele me levar a algum sítio onde Deus em sua plenitude pudesse me ouvir. E eu diria ao ombro amigo e a Deus que não consigo compreender tão grande dor. Meu coração não abarca dor tão absurda. A dor em pensar nesse mundo e suas sombras. E também a dor, a que me salva, a que me atravessa e me fere quando escuto a beleza e as verdades dessa canção.
E continuei vendo o vídeo e ouvindo a música. Atento, amante. Aprendendo que não devemos buscar diretamente no outro a completude da nossa vida. Só indiretamente é que devemos fazê-lo, e é através do belo que reside em tudo aquilo que o outro é capaz de produzir.
Uma busca direta, imediata mesmo, devemos fazê-la no seio de Deus. Ele sim é a própria completude. Um deus muito além das representações fragmentárias e humanas. E com esse deus me abro e dispo meu corpo e minha alma. Tiro a roupa e me entrego. E aproveito para lhe pedir um pouco de bebida, que ninguém é de ferro. E ele consente, de puro amor.

© Evaldo Balbino 2018