Do livro Moinho

Do livro Moinho

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

As mãos persistentes do equilibrista



Evaldo Balbino


Isto aqui não é um lamento. É o vagar de um corpo sobre precipícios em cujas beiras existem flores, algumas pedras que são duras e que por isso mesmo servem de apoio para pés e mãos que tentam viver. Tentam viver como se estivessem levitando. Viver da palavra, não no sentido monetário da sobrevivência, mas no sentido da vida de que se precisa, do ar que se respira.
E meu corpo passeia nuvens, se equilibra num mundo onde tudo é tão múltiplo, onde há tanto ruído e onde é tão difícil sentir o silêncio do que realmente fala. Existem muitos barulhos, bocas falam, olhos e braços gesticulam. As pessoas, no entanto, não se comunicam.
Olho para o vácuo sob meus pés e não vejo chão que me sustente, segurança que me apoie. Vejo um escuro descendo, cada vez mais. Mas insisto! Vejo nas beiradas desse escuro denso e profundo, vejo bem ali nas laterais as flores crescendo forte, as ramas rompendo a secura das rochas, os ninhos de algumas aves que vivem porque a vida é bela e urgente. Vejo pedras, cascalhos plantados nas ribanceiras e servindo de apoio para meus pés e mãos.
Logo eu que não sei fazer rapel, que não escalo montanhas, que tenho medo de alturas e patamares terríveis! Logo eu que não tenho asas, que não sou pássaro nem máquina voadora! Mesmo assim estou aqui, levitando sobre um escuro indiferente ao meu desejo de luz.
Sou aquele que vigia, que observa. Sou sentinela. Me sinto um lugar elevado de onde se observa ou se vigia. Sou mesmo este lugar.
E com meu corpo solto pelo espaço, vou atravessando os ruídos que pouco ou nada comunicam, vou tentando falar no meio de gritos, de burburinhos, de sons tantos e tontos. Sons tão pouco amáveis.
Eu vou escrevendo. Escrever é andar nesta corda bamba. Escrever, no meu caso, é insistir na grafia poética e humana das letras, mesmo que inexatos sejam os modos de lançar essas letras para o ar. Sim, sou desengonçado, um mero corpo humano tentando salvar a si e aos outros em sua inteireza. Corpos que são matéria, mas que também são alma.
As palavras, lanço-as como sementes aéreas. São tantos os pássaros, mas quase todos têm pressa de voar, de debandar, de chegar a algum destino. E quase todos não se dão conta de que não há destino algum a não ser em nós mesmos. Em nós mesmos nos olhando, nos amando, nos falando e olhando nos olhos uns dos outros, com vagar, com contemplação. Contemplar está ficando cada vez mais difícil. O mundo tem pressa e por isso mesmo despreza (sem perceber) as sementes que lhe chegam. Na velocidade da vida, nós nos perdemos.
E eu vou escrevendo, lançando essas sementes que se lançam contra muros e que desejam penetrar-lhes as entranhas impenetráveis. Um desejo de que a poesia seja entranhável me toma. As sementes precisam abrolhar amores. Vou escrevendo, apesar dos ruídos, das pressas, das vidas presas em utilidades ilusórias. Vou lançando sementes, não obstante as debandadas dos pássaros. E amo esses passarinhos! Do mesmo jeito amo as sementes que são crias deles. As palavras são ovo e promessa que engendramos num desejo de compreender e de sentir a vida.
Vou escrevendo, vou prosseguindo nesta corda bamba. Sou um equilibrista. O escuro é surdo, muitas vezes. Mas quem sabe um dia ele me ouvirá. Lanço-lhe sementes, e dele haverá de brotarem um dia flores verdes, alegrias tantas, almas plenas e dóceis para aquilo que é luz em nós. Ficarão dispostas, estas almas, a se deslumbrarem com tanta luz. Luz que ilumina com beleza a vida.
Vou escrevendo num mundo belo e sofrido, vendo pelas frestas das palavras os corações que batem. E com isso dou ao mundo o meu ato de coragem. Porque escrever é ter coragem de me manter como um dos atalaias da alma. Da minha, da nossa alma. Eu me sonho, escrevendo, um guardador de letras, esses rebanhos que nos apascentam, que nos mandam para um campo vasto e cheio de espinhos, mas cheio também de caminhos para as trilhas vitais.
Não é fácil persistir num mundo em que a literatura é só ornamento, avenca sem função nenhuma numa parede. E quanta função tem uma avenca, meu Deus! Com suas folhas frágeis, ela enfeita o meu dia e a minha noite. Enfeita o meu ato de olhar. E incide sobre o que olho uma outra possibilidade, uma inquieta luz.
Mas estamos na vida é para persistir, não é mesmo?! Devemos persistir no que amamos!!

© Evaldo Balbino 2017

sábado, 2 de setembro de 2017

Lançamento - "Fantasma de Joana d'Arc"

Meus caros amigos, é com satisfação que convido a todos para os eventos de lançamento do meu mais novo livro, Fantasma de Joana d'Arc.
 
1. Resende Costa - MG - Teatro Municipal: 08/09/2017 (Convite abaixo)
 
2. Belo Horizonte - MG - Livraria Café com Letras: 23/09/2017 (Convite abaixo)
 
3. São João del Rei - MG - Academia de Letras de São João del Rei: 24/09/2017
 
4. Montes Claros - MG: Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES): 18/10/2017
 


 
 
 
Fantasma de Joana d’Arc é o terceiro livro de poesias de Evaldo Balbino e sétimo de sua produção. Estudioso da poesia mística, com dissertação de mestrado e tese de doutorado sobre Adélia Prado e Santa Teresa d’Ávila, Evaldo Balbino – professor de Português e de Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais – reinscreve nessa obra, mais do que nos dois livros de poesia anteriores, um discurso poético sobre o sagrado/profano num viés místico-erótico e místico-homoerótico. Toma-se, ao longo do livro, a figura histórico-mítica de Joana d’Arc para a construção de poemas místico-eróticos, nos quais vozes poéticas femininas/masculinas misturam o sagrado e o profano. Desse modo, comparecem no livro Fantasma de Joana d’Arc, entre outras temáticas: uma discussão poética sobre a alma humana e sobre as reverberações da vida nessa alma; os tabus e as repressões que, na cultura geral e religiosa, recaem sobre o humano; metalinguagem que reitera um fazer literário investido do sagrado e da labuta com as palavras; discursos de libertação do ser, em sua nudez e inteireza corporal/espiritual.
 
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Texto que consta na orelha do livro

 

Evaldo Balbino em seu livro Fantasma de Joana d’Arc retoma procedimentos poéticos anteriores, mas imprime uma poética particular nascida do imaginário passional que oferece a personagem de Joana d’Arc. Imaginário nutrido não só pelo mito, mas também por intertextualidades como a que realiza com o cinema de Carl Theodor Dreyer. Joana oferece diversas possibilidades desde o relato, às vezes em terceira pessoa e às vezes em primeira, até a apelação:

 

Alimentaste, Joana,

um falso sonho humano,

um falso sonho sem fim. (p 37)

 

Um procedimento muito sutil é o jogo do travestismo poético, por exemplo, no poema que dá origem ao título da obra, “Fantasma de Joana d`Arc”:

 

Sigo na escura procura,

deixo-os gritando na praça

chamando-me bruxa e puta. (p.69)

 

Além desta convocação ao mito, o livro constrói o eu poético e sua palavra por meio de poemas existenciais (“Arte de encenar”, entre outros) ou meta-literários como “O poeta, a flor e o pássaro”.  Alguns poemas, inclusive, combinam os dois procedimentos performaticamente: do texto ao corpo e do corpo ao texto.

 

Mamãe dizia

que eu era um anjo

e que na terra eu viveria

como no céu.

 

Mas sou poeta. (p.52)

 

Não posso fechar esta rápida apresentação sem dizer do peso da religiosidade e da força passional que aparece no conjunto da obra. Os versos confundem o leitor dentro de uma atmosfera na qual se combinam o divino com as referências mitológicas (Tânatos, Eros), artísticas (Guido Reni), históricas (Catarina de Alexandria), para transbordarem com uma palavra que não aceita fronteiras nem dogmatismos:

 

Meus olhos abertos, apesar de tudo,

não pedindo perdão

por não dormirem o sono dos justos,

te proclamam ó deus desertado!

Exilado das molduras nas paredes

e dos corações dogmáticos. (p. 43)

 

O Fantasma de Joana d`Arc é um livro de múltiplas facetas, mas seus versos primam pelos motivos recorrentes na obra de Evaldo Balbino: o eu, a paixão, o corpo, a religiosidade e a escrita poética. Seus poemas convocam uma série de personagens que, como se fossem uma corte, acompanham a trajetória da existência e do escrever.

 

Sara Rojo
                                                                                                 (UFMG/CNPq)