Do livro Moinho

Do livro Moinho

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Dize-me, Temer, com quem andas



Michel Temer foi denunciado anteontem pela Procuradoria Geral da República – PGR. Acusação: corrupção passiva. O Código Penal, em seu artigo 317, define tal crime como sendo o de "solicitar ou receber, para si ou para outros, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”.
Devido a isso, o presidente cancelou ontem sua agenda no Planalto para defender-se mais uma vez. No vídeo que gravou, supostamente para o povo brasileiro, ele acusou o delator Joesley Batista, o ex-procurador da República Marcelo Miller (que deixou o Ministério Público Federal – MPF – para atuar em um escritório de advocacia que negociou o acordo de leniência do grupo JBS) e, sem nomear, acusou também o atual procurador-geral Rodrigo Janot.
Buscando culpar delatores, advogados de delatores e acusadores, Michel Temer tenta, mas não consegue, tapar o sol sombrio com a peneira. É que os furos da peneira que ele usa já são grandes demais. E os fachos de sombra que a atravessam são nítidos. Escancarados, porque escancarada já está a podridão na política brasileira. O nosso presidente busca de todos os modos vedar uma sepultura delatora, e para isso usa os poderes que lhe estão disponíveis, inclusive os do cargo público que ora ocupa. Mas não adianta: o cadáver já está putrefato. Só não sente o mau cheiro quem não tem bom senso.
Sem aqui colocar a mão no fogo por outrem, pois não se quer arriscar que ela se queime, afirmo que o presidente busca infrações nos referidos alvos para tentar se livrar dos pesos que lhe imputam culpa e ingovernabilidade. Na luta incessante pela autodefesa, nenhum governante consegue governar.
E mais ainda, não consegue governar, no caso de Temer, porque já perdeu a credibilidade segundo a opinião da maioria dos brasileiros. Basta vermos as sérias pesquisas destacando nos últimos dias a voz do povo que, segundo a tradição, é a voz de Deus. Se isso nem sempre é verdade, pelo menos às vezes é assim mesmo.
O mais interessante na autodefesa de Michel Temer é vê-lo enxovalhando pessoas com quem, até outro dia mesmo, ele se relacionava em conversa clandestina no Palácio do Jaburu, e isso na calada da noite. O homem a que ele hoje chama de “senhor grampeador” (o que é verdade) é o mesmo que lhe confidenciava crimes, perante os quais ele assentia como um bom companheiro. Pois todos nós sabemos: o atual presidente, pela gravação que não sofreu nenhuma adulteração segundo laudo da Polícia Federal, foi conivente com um criminoso. E isso no exercício de suas funções presidenciáveis. O provérbio popular “Dize-me com quem andas e direi quem és” carrega consigo equívocos, pois tudo na vida é relativo. No caso de Temer, porém, esse provérbio é plenamente cabível.
Um presidente pode sim receber e ouvir a todos no seu palácio, conforme o próprio acusado fez questão de dizer aos quatro ventos logo após a divulgação da sua conversa gravada com o empresário Joesley Batista. No entanto, daí a ouvir crimes e nada fazer, já é demais. Houve, por certo, conivência, o que já é crime. E se existe algo mais, cabe à justiça averiguar.
No vídeo de ontem, depois da denúncia protocolada pela PGR, Temer proferiu uma linda pérola, tão falsa como seu governo. Soltou um comentário de fazer os ouvidos rirem. “Tenho orgulho de ser presidente. Convenhamos, é uma coisa extraordinária. Para mim é algo tocante. É algo que, não sei como Deus me colocou aqui, dando-me uma tarefa difícil, mas certamente para que eu pudesse cumpri-la...”. De fato, depois dessa fala tão cômica, o locutor em tela virou piada nas redes sociais. Agora um golpe parlamentar, baixo e de bastidores nem tão escondidos assim, mudou de nome; virou Deus.
De uma coisa tenho certeza, Temer: com Deus é que não andas! Pelo menos não no teu papel de presidente.

© Evaldo Balbino 2017

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Lico do Iote


By Elimar do Carmo, 2017

Seu nome de pia era Alício, mas o chamavam Lico. Já as línguas escarninhas proferiam Lico Pacote, alcunha perversa das ruas quando queriam bulir com o homem. Era de família de lenhadores, que vendiam lenha rachada e carregada em lombos de burro. Mas ele, o Lico, além de rachar lenhas em algumas casas, vivia de vagar pelas ruas de Resende Costa, sem tino e sem rumo.
Magro e de barba rala, quase sempre descalço e de saco nas costas, levava bugigangas desconhecidas por nós. Errava com roupa larga, um cinto segurando a largura para que ela não caísse. De paletó ou camisa sem mangas, usava ora um chapéu ou boné, ora nenhuma proteção na cabeça. Ia sempre seguido de cães, os seus melhores e quiçá únicos amigos. De dois me lembro bem: Cirica e Cheiroso.
Carregava seus apetrechos ensacados e não se desfazia deles para nada, nem mesmo quando se exaltava contra as pessoas que o molestavam. Errava pelas ruas ensimesmado. No seu mundo, mas não em silêncio. Seu corpo andarilho ia xingando ou conversando, falando coisas sem nexo, ora com alguém que o havia irritado, ora com alguma pessoa que talvez nunca existira.
Entre os que zombavam dele, estavam muitas crianças em sua teatral falta de maldade. E faziam isso de longe, pois tinham medo. O homem vitimado revidava diversas vezes com pedradas impiedosas.
Três cenas me marcaram nas muitas vezes em que o vi.
Uma foi quando eu estava na sala de minha casa, vendo algum filme na tevê. De repente um estrondo, um estilhaçar de vidros esparramando-se pelo chão. Uma pedra invadira o quarto de hóspedes ao lado e tinha vindo das mãos do Lico. Nervoso lá na rua, ele vira o meu cunhado rindo à janela. E no riso lera uma chacota. Então o ato desvairado. A pedra atingira em cheio a vidraça. Meu cunhado jurou de pé junto que nada fizera. E isso perante os olhos bravos do meu pai.
Outra feita, minha irmã e eu voltávamos do centro da cidade. Quando passávamos ao lado do barranco de lixo, na entrada de nossa rua, vimos crianças se engraçando com o Lico. Ele, de súbito, agarrou pelos cabelos uma garota. Minha irmã ficou trêmula, vermelha, e ameaçou chamar a polícia. Lico deixou a menina sem modos. Obedeceu à minha irmã como um filho, resmungando, obedece a sua mãe.
A terceira cena foi na Escola Conjurados. Estávamos na sétima série. Um professor tinha se atrasado, e ficamos aguardando em sala. Alguns alunos, porém, acabaram indo para o corredor que dava para a rua. E lá fora, o Lico nervoso, injuriando o ar que materializava algum malfeitor. Do outro lado da rua, as casas de São Vicente. E entre elas e a escola, o homem em sua fúria. Os colegas fora de sala começaram a mexer com ele, berrando repetidas vezes “Ô, Lico Pacote!”. E os alunos gritavam e davam risadas escarnecedoras, escancaradas. A exaltação do homem aumentou, e ele começou a jorrar pachouchadas que excitavam ainda mais os seus carrascos. Não saciado com os palavrões, e vendo os garotos na persistência, foi pegando pedras e atirando-as contra o colégio. A meninada, trêmula, correu para a sala, mas com uma alegria trocista nos corpos. Na rua, alguém da escola foi acalmar o Lico. E logo depois a orientadora educacional entrou arrebatada na classe, puxando orelha de turma tão desrespeitosa.
A derradeira notícia que tive do Lico, muitos anos depois, foi que ele faleceu numa tentativa de fuga do lar de idosos em que fora recolhido tempos antes.
Lembro nestas linhas que em 1987 se constituiu no Brasil o 18 de maio como o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Essa é justamente a época de que extraio as memórias que tenho do Lico, reconstruindo-as. Tal dia foi instituído numa busca por uma sociedade sem manicômios e preocupada com os direitos das pessoas com transtornos mentais. Porém não basta “derrubarmos”, quando possível, muros de instituições psiquiátricas que privam os pacientes de viverem na sociedade. Não adianta isso, se não combatermos os preconceitos que nela mesma brotam como erva daninha.
Muitas pessoas caçoavam do Lico sim, mangavam de um homem que se destacava da maioria. Ele explicitava nas ruas as diferenças que todos nós temos e que escondemos muito mais do que entre quatro paredes. As nossas diferenças que nos espantam, nós as guardamos no fundo lago de nós. Escondemos, acautelados, tudo o que em nós nos molesta. E isso porque é mais fácil ser igual a todo mundo. Seguir uma onda é mais confortável do que erigir nossos próprios movimentos.


© Evaldo Balbino 2017