Do livro Moinho

Do livro Moinho

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Que país é este? O que o Governo Federal está comprando com dinheiro público




Evaldo Balbino


Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

Affonso Romano de Sant’Anna


Na tarde de ontem, 13 de julho de 2017, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara rejeitou o parecer de Sergio Zveiter que autorizava o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da denúncia contra Michel Temer.
Esse resultado na CCJ já se prometia. Afinal, há duas semanas o Executivo vinha trabalhando fortemente para garantir a rejeição do texto, com manobras no mínimo espúrias: a troca de integrantes da CCJ, o estímulo para que as lideranças partidárias pressionassem os deputados a votarem a favor do Planalto e a liberação acelerada de emendas parlamentares.
As três mencionadas ações do Planalto são, indubitavelmente, abomináveis. São manobras escancaradas de um governo que não se envergonha de fazer o que faz. O sentimento da vergonha, aliás, não existe de fato em grande número de nossos parlamentares. O lema de Michel Temer é “manter o poder, custe o que custar”.
Trocar membros de uma comissão como a CCJ é normal. Mas fazê-lo ao bel prazer do vento, ou melhor, de acordo com interesses escusos, é ato que reforça a ilegitimidade do governo Temer. Ilegítimo desde seu início, prossegue ele agora manejando as marionetes do Congresso para sustentar sua governabilidade insustentável. Membros foram retirados à força da bancada, foram obrigados a sair dela justamente porque não coadunam com a busca enviesada que a presidência da República vem fazendo pela manutenção do próprio poder.
Estimular lideranças partidárias para imporem aos filiados os caminhos a seguir é atitude no mínimo antidemocrática. Onde fica a liberdade individual de expressão? É claro que um filiado tem diversos pontos em comum, do ponto de vista político-ideológico, com o seu partido. No entanto, isso não pode eliminar a individualidade do sujeito cujo cargo deve ser de representabilidade daqueles eleitores que nele confiaram. Nesse sentido, cabe a cada um, no campo democrático, fazer suas escolhas, sem que, caso seja dissidente, venha a ser punido por isso.
Liberar aceleradamente recursos para parlamentares é outra manobra para comprar apoio desses pobres homens escravos do dinheiro e do poder. De fato, num ano em que órgãos federais tiveram que reduzir despesas por causa do corte bilionário do orçamento federal, Michel Temer vem acelerando a liberação de dinheiro das emendas que parlamentares fazem ao orçamento. Todos nós sabemos que deputados e senadores usam esse dinheiro nas suas bases eleitorais. E, diga-se ainda de passagem, os parlamentares mais beneficiados são os que estão caminhando cada vez mais para o lado do governo ou ao seu lado já estão. Na tarde de hoje, inclusive, conforme denunciou em seu discurso na CCJ o relator Sergio Zveiter, "Temer acha que usando dinheiro público pode submeter a Câmara ao seu bel sabor". O pior é que até agora o nosso governante-mor tem logrado isso.
Como um governo troca membros de uma comissão que deveria ser séria, e faz isso ao seu bel prazer (interesse)? Como esse governo oprime antidemocraticamente parlamentares a seguir uma única tendência (a da própria situação governista)? Como ainda esse mesmo governo compra apoio liberando dinheiro para emendas de parlamentares, justamente num momento em que a própria administração federal tem feito cortes drásticos no orçamento público?
Do mesmo modo como indagaria o grupo musical Legião Urbana, indago inconsolável: Que país é este, cuja podridão fede no “Senado”? Que país é este que está assistindo a um governo ilícito usar deslavadamente o dinheiro público para comprar votos de parlamentares? Essa liberação fácil de verbas não se justifica num cenário de contenção de despesas imposta pelo próprio governo. Mas se explica, evidentemente, pelo necessário apoio que Temer busca num parlamento já apodrecido em sua grande e talvez maior parte.
E como, pergunto por fim e mais enfaticamente, como estamos assistindo a tudo isso sem nada fazer ou fazendo pouco? O que faremos com e nesse país? Aproveitemos que agora, durante o recesso de julho, os ilustres deputados voltarão para suas bases eleitorais, lá onde estarão próximos de fato de seus eleitores. Hora propícia esta para que a vontade das pessoas, da maioria, se faça valer. Pressionemos os parlamentares a cumprirem seu papel com dignidade, qual seja: permitir o curso do julgamento de Michel Temer, para que esclarecimentos sejam feitos à população. Mesmo que seja inocente, o governante deve deixar isso cristalino para o povo. É isso que garantiria a governabilidade. E só num processo de julgamento, com acusação e defesa em diálogo (sempre se ouvindo o contraditório), é que se podem buscar aclaramentos.
Ajudai-me, por favor, a responder às perguntas que ora faço. Ajudemo-nos com voz politizada aos quatro ventos, para que os rumos de nossa política mudem. Uni-vos, todos os que estão lendo isto!



© Evaldo Balbino 2017

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O homem do pé frio




Evaldo Balbino

Desde menino eu já escutava a expressão “pé frio”. E os ouvidos da meninice tentavam entender essas duas palavras juntas, não vendo nelas nada mais do que um pobre pé entregue aos frios do inverno lá da minha cidadezinha, Resende Costa.
E lá na pequena urbe não faltavam pés para tal sofrência. Geadas pela manhã bem cedo espalhavam-se naqueles tempos sobre os campos, as ramas silvestres, os pés raquíticos das matas. Na hort`couve os pés de alface, as couves mesmas, as folhas do quiabo, as ramas dos chuchus e pepinos – tudo era cobertura branca reclamando maus tratos que a natureza perpetrava. E eu via os pés indo para os trabalhos diversos. Muitos de chinelas havaianas, ou imitadoras destas, trilhando a frialdade da terra castigada pela umidade do orvalho. Lavouras, comércio incipiente, trabalhos domésticos nas casas quadradas de janelas abertas para a rua, escolas recebendo meninos (alguns descalços, muitos de sandálias abertas, a minoria de sapatos fechados e protetores). E tudo vivendo nas alturas de Resende Costa.
Foi nos primeiros anos de escola que aprendi que o clima da nossa cidade é tropical de altitude. Vi pompa no nome, as palavras condizendo com o frio da cidade, com os ventos soprando nos morros sem fim. E vi a referência também ao calor, que o verão era de nos matar. E nem dinheiro tínhamos, a maioria das crianças, para comprar um chup-chup que fosse, aquele vagabundo chup-chup feito de Q-Suco, que era vendido nas ruas por alguns empreendedores caseiros da cidadezinha. Aí eu entendia mais, porque o conhecimento traz entendimento, o porquê daqueles extremos de minha terra: ora um calor de sufocar, ora um frio de fazer o queixo tremer e os pés ficarem gelados.
Entre frio e calor naquela época, minha cabeça de criança não conseguia ver outros sentidos na expressão “pé frio”. Mente infantil é fértil, é poeta por natureza, por intuição vinda direta de Deus, sem necessidade nenhuma de musas e de outros intermediários. Mas ali, a mente soprada pelos ventos e resfriada pelo frio de Resende Costa só pensava na literalidade da palavra “frio”.
Em cada mês de junho, eu gostava dos textos lidos na escola sobre festas juninas, os quais me falavam de fogueiras crepitando nos terreiros debaixo de bandeiras e bandeirolas. Então um calor gostoso me tomava, e me sentia ao lado das fogueiras festejando o São João. Vindo de família cuja religião não tinha dessas festas, eu imaginava a fogueira crepitando minha vida e meu coração. Só imaginava, porque até mesmo na escola as tais fogueiras não compareciam: as festas eram de dia e sem lenhas crepitando. E as festas de verdade, as que eram alimentadas pelo fogo quente e amigo, essas davam o ar de sua graça somente nos livros de leitura e nas redações que eu fazia como se tudo fosse verdade: “E a fogueira crepitava no terreiro...”.
Meus pais não eram muito favoráveis à minha participação em tais festejos na escola. Mesmo assim lá ia eu, chapéu na cabeça, bigode feito a carvão (um bigode bem malandro) e uma camisa xadrez. Ia feliz da vida para dançar com meu par. Isso era um modo de namoro também, de flerte sem eira nem beira, os corpos pertinhos no calor da dança, os olhos fingindo ingenuidade que nunca existia.
A primeira vez que ouvi outro sentido para a expressão em tela, “pé frio”, foi na escola mesmo. Mas não foi professora nenhuma que me ensinou não. Foi um colega dizendo de outro que tentara colar na prova e se dera mal. “O Emerson tem pé frio mesmo!”. A professora flagrara o ato e levara o infrator para a inspetora. Resultado: uma suspensão de fazer qualquer um morrer de vergonha e de medo da reprovação no fim do ano. Pois falo aqui da época em que a Escola reprovava sim, sem volteios, sem mão piedosa na cabeça. E a retenção poderia ser consequência de faltas sucessivas, de perda das matérias a ser cobradas nas avaliações implacáveis.
Mesmo tendo aprendido o novo significado, continuei com o pensamento fixo nos pés sentindo frio em Resende Costa nos meses de inverno, principalmente em junho e julho. E muitas vezes, depois de crescido e já vivendo em Belo Horizonte, me gabei da minha cidade com as pessoas: “Frio de verdade é o de Resende Costa! Vocês aqui não: qualquer esfriadinha, sai todo mundo de blusa! Isso é fraqueza demais da conta!”. E as pessoas riam de modo forçado, como que dizendo lá vem o outro com essa mania de comparar. Tanto fui falando isso com as gentes, que acabou virando mania. E à pergunta “Mas você não vai se agasalhar, nem uma blusinha?!”, eu ia logo dizendo que BH é quente, um calor danado. E até brincava: “Isso aqui tá quase um forno do capeta!”.
Depois de anos com esse costume, no entanto, estou agora pagando língua. Nos últimos três anos tenho sofrido. Tenho usado blusa com mais frequência. E confesso: tenho calçado meias a torto e a direito. Neste 2017, por exemplo, de um inverno nunca visto por mim nos 22 anos que resido nesta cidade, tenho colocado em cada pé duas meias para que os ossos não doam. Uma amiga caçoa de mim, dizendo que já estou com sintomas de velhice, o pé frio denunciando a minha idade.
Que seja isso. Porque o tempo, graças a Deus, vai passando para mim também. De qualquer forma, tomara que eu seja agora apenas alguém de pés frios, e não um pé frio pela vida afora.

© Evaldo Balbino 2017