Do livro Moinho

Do livro Moinho

terça-feira, 18 de abril de 2017

Menino também brinca de boneca

Evaldo Balbino






Certo dia a irmã de Lino passou uma tarde inteira na casinha das amigas Lu e Tila. As duas irmãs a tinham convidado para brincarem de comadres lá no fundo da horta com a permissão dos pais.

Depois de costurar e bordar com as colegas, sua irmã chegou na boca da noite com um presente feito por elas, o qual lhe fora oferecido de bom grado.

– É feia de doer, parece até uma bruxa a coitada! – maldisse a irmã de Lino.

Cabeça quadrada. Cabelo não tinha nenhum: só um pano preto envolvendo o crânio. Olhos, nariz e boca mal traçados com costura de agulha hesitante e linha preta. O pescoço e o corpo eram um toquinho de panos envoltos por uma fazenda maior e bem costurada. Braços e pernas, idem, só que em toquinhos menores. As pernas, é claro, mais compridas que os braços. O vestidinho que usava a boneca era bonito, de chita, numa costura também acriançada. Assim um pouco torta, a bonequinha era linda aos olhos de Lino. O vestido dava vida àquela “bruxinha”, assim nomeada pela irmã. Um vestido ramado, com flores vermelhas e amarelas num fundo verde-claro.

A menina luxenta, desdenhando a bonequinha, atirou-a sobre o banco de madeira da sala, dizendo que iria jogá-la no lixo depois.

Então o menino se apaixonou pela rejeitada. “Que bruxa que nada!”, pensou consigo. Pediu a boneca para si com a maior naturalidade do mundo. A irmã fez um muxoxo e deu de ombros:

– Se quiser, pega! Nunca vi menino brincar de boneca, mas pode pegar.

Lino não se importou com as palavras da irmã. Ora essa! Não tinha nada disso não. Estava amando a boneca e pronto. Não via problema nisso não.

Pegou a boneca e abraçou-a com aperto carinhoso. Não lhe daria nenhum banho, não por enquanto, que ela estava novinha ainda, acabada de ser feita. Se lhe cuidasse bem, se não a deixasse no chão sujo de terra, se não a expusesse ao Sol que castiga, não teria que banhá-la tão cedo.

Levou-a para seu quarto, e lá a deixou dormindo tranquila sobre a cama, bem ao lado do travesseiro. E já ansiava a hora em que dormiria ao lado dela, abraçados os dois. Ele sendo o pai de um serzinho tão pequeno e indefeso.

Saiu para correr com os amigos na rua. Jogou uma pelada, pegou bandeira e depois ainda brincou de esconde-esconde. O tempo todo, porém, brincando lá com os amigos, foi sentindo uma ansiedade, uma espera danada. Uma vontade louca de chegar em casa, tomar um banho, tomar um café com leite bem gordo e se deitar ao lado da bonequinha, dar-lhe carinho desmesuradamente. Um instinto profundo foi tomando conta de seus pensamentos, cada vez mais. Um desejo de ser pai do serzinho desengonçado, não aceito pela irmã.

Tudo, porém, ficou só na vontade.No mais depois da noite, já em casa e de banho tomado, o menino se preparava para dormir, quando o pai chegou de fazer serão no trabalho.

O homem entrou no quarto do garoto dando um ufa de cansaço pelo longo dia, e seus olhos viram a boneca sobre a cama do filho. Indagou que coisa era aquela ao lado do travesseiro.

Lino ficou quieto, temeroso da tradicional braveza do pai. Uma braveza que lhe tirava a espontaneidade, a possibilidade de viver sem receios. Uma braveza amorosa, mas cheia de espinhos desnecessários. Diante do silêncio do filho, outra vez a pergunta. E mais uma vez o silêncio do garoto.

Antes que o pior acontecesse, a mãe veio imediatamente ao socorro do filho. Foi logo entrando no quarto e informando ao marido do que se tratava. Disse sem medir palavras, pronta já para enfrentar as manias do esposo. Ele não pestanejou um segundo sequer. Seus olhos relampejaram sobre o filho, reprovadores, e suas mãos, sem esperar alguma reação da esposa, pegaram a bruxinha sem se importarem com o choro do menino. Porque este já chorava, e não pouco. Com passadas bravas, o pai foi até a privada seca, lá no fundo da horta, e jogou o brinquedo na fossa. 
Lino continuou chorando em seu quarto, só que agora em silêncio. Engoliu pouco a pouco as lágrimas antes que o pai viesse lhe exigir contenção. E foi dormir sozinho. Nem tinha jeito de fazer uma sepultura para sua filha, que sobre a fossa da privada isso não seria possível. Entre as fezes humanas, ficaram enterrados sua filha e o seu desejo de ser pai.


© 2017 Evaldo Balbino

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Soneto a Vinicius de Moraes (Madrid, 11 de março de 2004)





Março – manhã fria, e a vida partiu,
se esvaiu; foram três os trens partidos,
abertos como um cogumelo vil
ou uma rosa, de março e não de abril.

Meditem nessa rosa rubra e ancha,
mais outra rosa de pó e de morte,
rosa expandida que marcou com mancha
de sangue cada vida em sua sorte.

Três trens partiram em manhã de frio,
formando um cálido e vermelho rio,
águas de março e de um tormento forte.

Seguiu-se um silêncio depois de tudo
– das dores, das mortes –, e um ódio justo
cobriu a terra já farta de luto.

(BALBINO, Evaldo. Filhos da pedra. São Paulo: Nelpa, 2012. p. 50)

sábado, 8 de abril de 2017

Os borralheiros venturosos

Evaldo Balbino


A fila se estendia um pouco, sempre pra diante. Mas eu estava com paciência. Mesmo porque me divertia com as duas senhoras conversando diante de mim, comentando sobre a correria da vida, o trânsito incorrigível, os altos preços de tudo, uma carestia danada.

A mais idosa iniciou o colóquio com a outra mais nova. Começou por dizer que não ia de jeito nenhum pra fila preferencial, porque não tinha pressa nenhuma e porque gostava de conversar com as pessoas com mais vagar. E os assuntos entre ambas foram rendendo, variando, mudando de tema e forma.

“Tudo pela hora da morte, minha filha, tudo!” – dizia a senhora já idosa à mulher mais jovem, e falava com sabedoria. A outra, ouvidos atentos pra se distrair da fila, concordava com a cabeça, um meneio cheio de decepção com a vida.

E a conversa das duas seguia-se como se nada fosse interrompê-la.

“E a senhora não viu o que o governo tá querendo?! Agora é o salário arrochando, mais tarde uma aposentadoria que não vem nunca... só Deus na causa, viu!”

“E ainda por cima o preço do feijão! Já viu o preço do feijão?! Depois falam na TV que a inflação está caindo!”

“Conversa pra boi dormir, dona! Pois outro dia vi num mercado que o quilo do feijão preto tava R$3,90. Quase caí pra trás! O carioquinha mais de R$6,50! Um absurdo! Comprei dez quilos do preto pra estoque.

“Mas o preto estava só isso?!” – a cara de espanto da senhora, com a boca fazendo um biquinho de terror, ficou engraçada.

Nas idas e vindas da conversa, como num pingue-pongue necessário pra que o fio do diálogo não se esvaísse e desse sentido pra aquela fila, pra aquele barulho infernal vindo da avenida lá fora, pras facadas que cada um de nós ganharia no caixa daquela farmácia, pois os medicamentos também estão lá nas nuvens. Tudo mesmo pela hora da morte.

De repente, no vaivém da conversa, outra mudança de rumo. Começaram a falar de unhas, e isso porque a mulher mais jovem levava no braço um detergente neutro.

“Detergente em farmácia é caro demais, menina!” – proferia a sábia voz.  “Vai no mercado mais lá embaixo, perto da Contorno, que é melhor!”

Com gestos resignados por estar gastando mais, a outra explicou que precisava levar dali mesmo, que não teria tempo de descer lá na avenida não porque tinha que logo pegar o ônibus que a levaria ao hospital. Era enfermeira. Com as unhas já feitas, “e eu paguei uma fortuna pra manicure hoje!”, ela não poderia usar qualquer detergente. Tinha que ser o neutro.

E a partir daí começaram outras lamentações das duas. Eu me senti diante daquele muro lá em Jerusalém, onde os fiéis (também infiéis) choram suas dores, seus pecados, suas misérias. E as duas mulheres choravam, olhando-se com piedade, pelo excesso de louça a ser lavada, o chão a ser limpo com produtos químicos destruidores de qualquer beleza. Logo adiante, esta delícia pra ser ouvida:

“Pois eu, minha filha, não abro mão de luva não! Até hoje! E todo sábado é sagrado, sacralíssimo! É quando descanso mãos e pés em água morna e boa. Minha manicure é uma santa protetora. Uma santa! Com ela, saio do mundo, leve que só vendo!”

Que bom ouvir tudo aquilo. Nem tudo são choradeiras na vida mesmo. Os bálsamos são pra isso. Um batom que se passa; um tênis bonito, mesmo sendo baratíssimo, a dar mais garbo pros pés; um penteado diferente; uma roupa estampada e alegre comprada pra se ajeitar no corpo e fazer a alma um pouco mais feliz... Que mal há nisso tudo? Nenhum. A vida é bela, porque nós a enfeitamos.

Atento à conversa das duas, e com esses pensamentos adejando na minha cabeça, não me dei conta de que a mulher mais idosa já estava me olhando e sorrindo. Só me apercebi disso com a pergunta muito afirmativa que ela me dirigira:

“Está vendo, rapaz, como as mulheres sofrem!!”

Sorri pra ela, querendo agradecer pelo “rapaz” que me rejuvenescera uns 15 anos, mas também lhe sendo grato por ter dividido comigo essas dores que são, na verdade, de todos nós.

Então lhe disse que os homens também sofrem. E ela, folgazã, insistiu que não. “Os homens não têm estrias, não geram filhos, não têm a dor do parto, não se preocupam com as unhas na hora de limpar a casa, não acumulam vários serviços ao mesmo tempo, não...”. E aí teve de parar. Sua enumeração continuaria infindável se a garota do caixa não a tivesse chamado, porque sua vez de ser atendida já chegara. Despediu-se num sorriso gostoso e lá se foi pra tomar as facadas da atendente dócil que só vendo. A mulher mais jovem não me deu papo. Até entendi isso, pois desde o início eu era um mudo. Só ouvidos. E logo ela também foi chamada.

Depois dessa cena, fiquei e ainda estou pensando algumas coisas. Há verdade no que aquela senhora disse? Creio sim que haja verdades, sem dúvida. Mesmo com tantos avanços, sabemos, as mulheres ainda são muito sobrecarregadas. Digo “verdades”, porque também havia ali, no discurso amigo e bom daquela mulher, alguns equívocos.

Nem tudo é tão certinho assim na vida. Aqui é isso, ali é aquilo outro, acolá é assim e mais pra lá ainda é assado. Não, nem tudo é desse jeito. Há muitas coisas na vida que não se medem com clareza, não se classificam e não se separam tão nitidamente. Aí me lembrei do pastor outro dia dizendo na igreja que devemos ter a prudência da água que não se mistura com o óleo. Ora essa, onde tanta certeza assim?! Cada um de nós é água e óleo ao mesmo tempo. Não tem dessas coisas não.

Havia alguns equívocos sim na fala daquela senhora. Nem todo homem, e nem toda mulher, deve ser categorizado desse ou daquele jeito. Eu mesmo tenho horas de angústia e de terror perante a louça que se acumula na pia da minha cozinha. Às vezes é preguiça, confesso, mas nem sempre. Há muitos momentos em que eu me perco com tantos apelos, com tanta coisa pra fazer. E não tem jeito: lá sobre a pia as vasilhas vão se acumulando, se imiscuindo umas com as outras, se enroscando de modo desavergonhado. E não sou puritano não! Elas podem se enroscar sim. O problema é que fazem isso olhando pra mim. E se fosse um olhar obsceno, com segundas e gostosas intenções, tudo bem. Mas não!! Olham pra mim porque querem me escravizar, isso sim!

E também não é preocupação com minhas unhas. Nem as faço. Como sempre brinco com amigos: já nasci com as unhas feitas, não preciso de manicure. O problema é o tempo que é pouco e a gente com muita coisa pra fazer. Uma música de Beethoven pra ouvir, um livro esperando leitura, o carteiro chamando no interfone, a fome que se deve matar todo dia em horas esparsadas, o show da Marisa Monte na sexta de noite gritando pela minha presença, as aulas pra preparar, o namoro que não pode ficar pra escanteio (porque beijar é sempre bom, e eu não sou bobo, uai!), as reuniões aos montes lá no trabalho e em sua maioria sem frutos, a vizinha precisando de ajuda... E pela casa o pó se acumulando, a louça sujando-se, a roupa suja pedindo água e sabão, as coisas ficando fora do lugar no dia a dia, o corpo da gente pedindo banho, a cama chamando, o despertador avisando que o novo dia chegou com várias coisas boas e muitas cobranças etc., etc., etc...

Aff! Que vida vertiginosa a nossa! Múltipla e vertiginosa. Só que não vou ficar diante de um muro das lamentações não. De jeito nenhum! A vida é bela e boa, apesar de também ser cheia de cansaços. Viver é maravilhoso, não se deve negar. E, como sempre diz o povo: “cruzar os braços, só depois de morto”. Enquanto isso, vamos vivendo, conforme Deus manda, conforme as necessidades exigem, conforme os nossos desejos propiciam.

© 2017 Evaldo Balbino

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Uma sombra sobre Temer: malabarismos no Olimpo da política brasileira


Evaldo Balbino

Os três poderes do nosso país, em qualquer uma de suas partes e de seus patamares, causam inveja em qualquer circo. E quando olhamos para os altos patamares desses poderes, aí sim um Cirque du Soleil fica no chinelo. Perde o seu brilho solar, porque o ouro do poder (com olhos grandes de cifrões) fala mais forte. Espero que se entenda aqui essa comparação, pois o brilho da arte do Cirque du Soleil é inapagável. Só que em termos de malabarismo, no mau sentido da expressão, a política brasileira se sobressai.
Li ontem na Carta Capital sobre uma sombra que rodeia o presidente em exercício Michel Temer. Trata-se de um jantar no Jaburu em 2014, onde o então vice-presidente promoveu um encontro para captação de fundos de campanha. Além do anfitrião Temer, participaram desse festim, num espaço público e com recursos públicos, os convivas Eliseu Padilha (hoje chefe da Casa Civil), Marcelo Odebrecht (presidente da Odebrecht condenado a 19 anos de cadeia pela Lava Jato) e Cláudio Melo Filho, ex-lobista dessa empresa.
O encontro era segredo. Não de estado, mas de “amigos” cujas mãos “se ajudam” nos bastidores. Era segredo, mas não é mais. Foi justamente Melo Filho, em delação premiada, que primeiro atirou ao vento as principais linhas da trama ocultista que se operara nesse jantar e depois dele.
Para detalhes dos desencontros entre os fatos, declarações que não se casam, meneios dos discursos que tentam sair pela porta dos fundos numa hesitação que demonstra culpa no cartório, remeto o leitor à excelente reportagem “O presidente assombrado”, assinada por André Barrocal (Carta capital, 05 de abril de 2017, p. 16-21).
Na mesma reportagem, lê-se que o julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral da chapa Dilma-Temer está previsto para o dia 04 de abril de 2017, terça-feira. Percebe-se que, apesar de a revista que tenho em mãos ter vindo às bancas agora, na semana do dia 04 de abril, a redação da reportagem é da semana anterior. Já vemos nessa reportagem, como em qualquer texto arguto e comprometido com a política de nosso país, o que podemos chamar de quase profecia: “Boatos em Brasília indicam ainda que o julgamento poderá ficar inconcluso por meses, graças a manobras regimentais”. Ora, pois não foi isso o que aconteceu justamente ontem, dia 04 de abril? O TSE deu mais prazo para as defesas e suspendeu o julgamento, que poderá ser retomado somente em maio.
Nada mais providencial, para o Palácio do Planalto, do que essa decisão. Mas não nos enganemos: acasos não existem. A suspensão do julgamento ocorre no exato momento em que dois dos sete ministros estão prestes a deixar o TSE, pois seus mandatos na Corte se encerram um no próximo dia 16 de abril e o outro em 5 de maio. Os dois novos ministros, por lei, serão indicados pelo presidente em exercício. Provavelmente, então, os dois novos julgadores do presidente Temer serão os escolhidos por ele.
O que se pode esperar dum processo presidido por Gilmar Mendes, escancaradamente íntimo dum réu a quem cabe julgar – Michel Temer? O que se espera dum julgamento cujos dois novos julgadores serão escolhidos justamente pelo próprio e mesmo réu? O que se espera desse baile que se realiza nos altos do Olimpo?
Os deuses vão fazendo malabarismos, barganhas, conchavos, trocando cetros e poderes. Enquanto isso, o povo a tudo assiste (ou não assiste) do outro lado, mais abaixo das montanhas que o separam do Olimpo.
        Aliás, pensando assim, me lembro bem dum povo, lá em 1984, brigando nas ruas por “Diretas já” e o congresso votando o contrário. Lembro-me de pessoas em 2016 enfrentando forças policiais de fora da Câmara dos deputados, enquanto estes (do outro lado e protegidos por uma parede intransponível de vidro) brindavam com suas taças e comiam de lautas mesas uma fartura vinda de dinheiro público. Alguns deputados e funcionários da Casa até tiveram tempo para tirar fotos dos confrontos lá de fora. Talvez quisessem confeccionar cartões-postais da linda e excludente cena proporcionada pela política brasileira.

© 2017 Evaldo Balbino