Do livro Moinho

Do livro Moinho

terça-feira, 30 de maio de 2017

As doces tentações





A gente chega ao supermercado na maior alegria do mundo. Nada nem ninguém nos tirará a felicidade, a cara querendo fazer amigos com gente e bicho. O dia é bonito, apesar de elétrico num trânsito louco. As filas são imensas lá perante os caixas, mas aguardaremos, pacientes, que os funcionários nos atendam também com paciência e sorriso. Mesmo trabalhando muito, coitados, se deixarão contagiar pela beleza de hoje.
E mais ainda. A gente chega ao supermercado convictos de que as prateleiras não nos enganarão. Nada de comprar o supérfluo, aquilo que não consta na lista feita em casa, num acurado olhar que tudo vê e espreita. As contas sobem, a vida em sua base urge, e não podemos nos entregar a desmedidas que não cabem no bolso. E quem foi que disse que isso é motivo para não se estar feliz? Felicidade não se adquire consumindo com exageros.
Salgadinhos, chocolates, frituras industrializadas em pacotes cheios de sal, sorvete cremoso, balas de caramelo prometendo derreter-se aos poucos nos paladares ansiosos, enlatados daquilo que é mais caro e que vem das industrias cheio de conservantes, o arroz parboilizado quando o branquinho mesmo ou integral simples nos servem, latas coloridas de refrigerantes agenciados por inteligentes propagandas, a cerveja gelada e chamativa prometendo “descer redonda” nos dias quentes, o queijo padrão ou o moçarela ou ainda o importado quando podemos pegar o minas frescal ali mesmo gotoso e oferecido. A lista não termina nunca mais. E é proporcional aos nossos ziguezagues pelos corredores sem fim dos labirínticos supermercados.
O vilão mesmo é o açúcar. Mais ainda: tudo o que se faz com ele e que já vem pronto, pois, além de delicioso, é prático. Só de pensar em não ficar horas na cozinha preparando o bolo, o pudim, a sobremesa açucarada, os doces, os caramelos, as guloseimas que matam a fome e que tomam tempo para serem feitas. Tudo bem que tem os que gostam de ficar na cozinha. Nada contra. Eu, particularmente, não gosto é de lavar louça. Uma preguiça descomunal me toma e me sinto escravo do tempo. Minhas mãos e meu corpo reclamam. E há também os que gostam disso. Têm prazer em esfregar e esfregar panelas, fôrmas, talheres, copos. Do mesmo modo, não tenho nada contra. Acreditam que tenho uma cunhada adoradora de passar roupa! Sempre me fala que, se pudesse, ficaria passando roupa todos os dias, o dia inteiro. Aposto que se ela tivesse nascido na época do ferro a brasa não pensaria assim.
Voltando ao supermercado, mais especificamente ao açúcar vilão e atraente, temos um caminho a seguir, uma solução não tão saborosa, mas eficaz. Falo do açúcar diet, aquele que, pelo menos em nossa mente, não funciona. Mas acreditem: ele funciona mesmo. Conheço gentes que o usam e que juram ser ele supimpa.
Outra possibilidade, neste labirinto alimentício da vida cheio de armadilhas, é o adoçante simples e barato que pode nos servir e muito. Ele é muitas vezes famigerado, detestado por muitos, persona non grata quase sempre. Mas é também filho de Deus, ora! Assim como o açúcar. Parodiando as bíblias, digo que tudo é filho de Deus, mas nem tudo nos convém. Eu mesmo, se consumo açúcar, já vou dentro de uns três meses começando a dar adeus às minhas roupas e buscando outras que não me apertem tanto. Como diz muita gente por aí: “eu num se dô com açúca!”.
Mas cuidado com o adoçante, viu!? Nada de aspartame, nem pensar mesmo, que muitos dizeres embasados já cansaram de pontuar os riscos à saúde que essa substância pode apresentar. Além disso, cuidado também com um certo amargor que a maioria dos adoçantes tem. A vida já tem tantos amargores! Adocicar um pouco o viver não faz mal, não é mesmo?! O problema é que os adoçantes com sucralose, mais docinhos que os outros, são mais caros. E também há quem os destrate no que diz respeito aos males possíveis à saúde. Haja coragem de nossa parte! E também força, esforço e reforço dos nossos bolsos!
Outra coisa digo: tomo sempre certo cuidado com os adoçantes. Chega a ser uma hesitação que toma tempo lá no supermercado. Aquelas embalagens transparentes e lindas, que me dão medo e atraem. Perco muito tempo mesmo com elas. Mas que fazer?! O jeito é namorá-las, estudá-las com esmero, para ver se compensa ou não fazê-las nossas consortes, nossas amantes cotidianas.
Uns frasquinhos vêm com coisas de se amar. Uma xícara de café e de aroma agreste. Pequenas margaridas simples e magras, bonitas no seu existir mesmo podadas, dando um ar de natureza, de algo saudável e vivificante. Um copo cheio de suco e um canudinho em seu interior, esperando por boca sequiosa e preocupada com a saúde – tomara que que não seja um suco de pó seco e sem vida, com aquele aroma sintetizado como os sentimentos falsos. Laranjas fatiadas e maçãs inteiras, robustas, brilhando – nem pensamos que sejam frutas cheias de agrotóxicos; pensar isso nos intoxica. E tudo isso sobre mesa invisível, dando ar de leveza ao que comeremos e beberemos e, é logico, a todos nós – os esfomeados.
Mas eis que lá no centro de tudo, na mesma embalagenzinha, algo nos laça: um bolo redondo, delicioso, trajando cobertura densa e branca! Tudo bem que encimado de moranguinhos, mas isso não retira seu ar glutão e lerdo. É um bolo doce, com certeza. Dulcíssimo, de dar água na boca. E ele está ali, entre suco saudável, café diet, frutas benfazejas e margaridas aéreas como o ar. O que fazer então, diante de tamanho paradoxo?
Poderão dizer que é bolo para jejuns, feito com o adoçante a ser vendido dentro do lindo frasco. Mas quem me garante isso? E o bolo é bolo, no final das contas. Sua forma bojuda não me engana, antes me ama com olhos grandes, doces e dóceis.
Olho para o bolo que me olha. Olho para o bolo no desenho, e vou logo pensando no bolo que farei em casa. Um bolo real. Terei que lavar as louças depois, mas paciência. A comilança compensará.
Então pego o vidrinho de adoçante. O vidrinho indecente que me açula. Volto para casa sem mais culpas. A vida precisa ser adoçada.

© Evaldo Balbino 2017

terça-feira, 23 de maio de 2017

De espadas e de heróis

Evaldo Balbino



As crianças brincam. E adultos felizes, os que têm a infância durando conscientemente dentro de si, também brincam.
Por isso estou aqui brincando. Estou jogando com palavras, criando e recriando a minha e a nossa vida. Estou seguindo aquilo que Freud constatou em nossa existência: assim como as crianças brincam, criando mundos pela imaginação, o escritor faz isso com palavras. Os escritores criativos embarcam em devaneios não para fugir da realidade, mas para narrá-la de modo melhor. Assim também as crianças. Inventam asas não no intuito de voarem para além desta vida, mas para mergulharem num voo certeiro no âmago mesmo da sua experiência vital.
E voávamos muito na minha infância. Como se voa hoje, é claro!
Se o adejar, no entanto, permanece em sua essência, as formas de voo vão mudando em certos aspectos. Mudam-se os brinquedos, muda-se o que é moda. O motor de tudo, porém, continua. Continuam os nossos gestos com formas variadas sim, mas sempre com os mesmos desejos.
Lá nos túneis de outrora, na minha cidadezinha, havia muitos barrancos não virgens, verdadeiros precipícios. E sua não virgindade era porque todos eram explorados por meninas e meninos elétricos. Hoje tais paragens estão cheias de mato, com mamoneiros, lobeiras e folhas de assa-peixe se alastrando por tudo. Desconfio até que estejam abandonadas. As invenções de agora se fazem em outros cenários, outras plataformas, principalmente as digitais. As cercas de arame farpado e muros de placa ou de tijolo não contam. Porque criança não respeita tais obstáculos.
E esses obstáculos eram pulados para que as matas fossem desbravadas. Éramos bandeirantes que buscavam ouro o mais fino, diamante o mais precioso e inalienável. Procurávamos o devaneio sem o qual não sobrevivemos na vida. Nos barrancos de nossa meninice, tudo era possível. Até mesmo o desmundo.
Espadas eram tantas. Cabos feitos de sabugo de milho. Grão já maduro, debulhado e servido a galinhas, pombos e humanos esfaimados de vida, alegria e gula. O sabugo ficava para restolho a gado e para brinquedos infantis. Os cabos assim, de sabugo, serviam de base onde se espetavam barrinhas finas de ferro. Eram varinhas que sobravam do mundo adulto, principalmente nas construções civis onde os pedreiros desprezavam os restos da ferragem usada para a estrutura das lajes.
Eram tantas as espadas quantos fossem os heróis que pudessem manuseá-las. Éramos cavaleiros indomáveis em cavalos imaginários.
Cavalos não existiam mesmo. Só os de verdade, mas dos adultos. A imaginação dessa forma os criava e os fazia galoparem pelo Grand Canyon de nosso bairro, nos fundos de nossas hortas, lá onde podíamos sonhar e campear. As façanhas se realizavam no pasto do Chicão ou no barranco do outro lado da rua, mais para os fundos nos pastos do Lalado. Nossos ginetes eram invisíveis. E eram lindos em suas formas, crinas levantadas ao vento, patas coriscando o chão sob o rumor que as folhas dos bambuzais faziam no topo de um barranco. E as folhas de bambu farfalhavam. Os caules lenhosos e flexíveis balançavam e se roçavam. Rangiam para nos dar medo. Alguns dos meninos até tremiam, já outros não. Aquelas vozes vegetais eram nossas companheiras, davam mais realismo a nossas peripécias.
E em nossas aventuras éramos venturosos. Heróis inabaláveis em suas vontades de viver. Lutávamos com vontade, cada um defendendo seu território contra as hordas inimigas. As nossas guerras eram pura vida, sem feridos e mortes. E golpes de espada atravessavam o ar, batiam-se contra as paredes das ribanceiras e voltavam num eco destemido para os nossos ouvidos. Era poeira fazendo densa cortina sobre os nossos medos encenados naqueles palcos. Era tudo poeira e suor, o que depois demandaria banho mais cuidadoso em casa. Isso para xingamentos das mães, para reclamações dos pais. As contas de luz e água reverberariam mais depois essas bravuras de amor.
E o amor era tanto, que os nossos pais aceitavam, no final das contas, energias tamanhas se desdobrando nos grandes espaços. E o céu sem fim, com seu azul profundo ou seu ar espesso de nuvens cinzentas, abraçava a todos os guris e gurias que corríamos pelos campos, pela poeira da vida vivida e nunca esquecida.


© Evaldo Balbino 2017

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A mídia perversa e perigosa - o caso da Reforma da Previdência no Jornal da Record





Dois dias após o Dia do Trabalhador, vem mais uma vez aquela mídia perigosa para justamente dividir, e não unir, as classes trabalhadoras no Brasil.

Uso "classes" assim mesmo no plural, pois todos sabemos que os trabalhadores não são tratados de modo igual em terras em que já grassaram e grassam até mesmo marajás. A Constituição não se respeita em nosso país, porque sabemos bem: nem todo mundo é igual nas relações sociais, apesar de se propalar com documentos lindos e maravilhosos que "todos são iguais perante a lei". Podem até ser, mas isso somente em termos textuais. Também sabemos - essa consciência ardendo em nós - que o próprio Poder Judiciário no Brasil é manipulado de acordo com mãos e seus desejos. Isso também é cabível ao nosso Legislativo.

Se olharmos num dicionário qualquer, "perigo" é uma situação em que se encontra sob ameaça a existência ou a integridade de uma pessoa, um animal, um objeto etc.; um risco; ou ainda aquilo que provoca essa circunstância. Pois bem, o Jornal da Record de hoje à noite, 03 de maio de 2017, apresentou mais uma vez uma parte da série em que a emissora vem falando sobre a Reforma da Previdência. E o que vi e ouvi hoje nessa mídia - merecedora de nossas desconfianças como toda a grande mídia brasileira - foi de me assustar. Não foi um susto inesperado, inusitado. Pois já era previsível. O que vi foi justamente uma reportagem (situação) que ameaça os trabalhadores do Brasil. E os ameaça porque lhes deu informações recortadas de acordo com os interesses governamentais deste momento. Os interesses que atendem a um mercado industrial e comercial sequioso de sangue, suor e dinheiro. Estamos mesmo na era vampiresca. Não é à toa que se espalham pelo país um Temer caricaturado em Drácula. Pois bem parece um!

Venho acompanhando essa série, não por acreditar em tudo o que se diz nesse jornal, mas justamente para ver até onde pode ir uma falta de seriedade no âmbito do jornalismo. Uma falta de seriedade que é fruto de uma perversão, de uma índole propensa a atender às vontades do capital e a desrespeitar os direitos trabalhistas.

Na edição de hoje falou-se que os trabalhadores do setor público têm regalias que tendem a desaparecer com a Reforma. Enfatizou-se que os trabalhadores da rede privada estão em grande desvantagem. Apresentaram até números! Disseram, por exemplo, que um trabalhador do setor privado aposenta-se com um valor médio de R$1.100,00 mensais, enquanto que um funcionário público aposenta-se com o valor mensal de R$7.500,00 mais ou menos. Falava-se de uma média, é claro, e não referente a funcionários da nossa Alta Corte lá dos olimpos do Legislativo ou do Judiciário. A jornalista disparou com sobressalto: "um servidor público aposenta-se com um salário mais ou menos sete vezes maior do que o trabalhador do setor privado!".

E a reportagem parou nessa informação vazia, tendenciosa, sem mais explicações.

Todo discurso é tendencioso, é certo. Este meu aqui não deixa de sê-lo. Nem escondo as tendências do que falo. Mas o Jornal em questão escondeu sim. Recortou o que queria falar para demonstrar o que queria demonstrar. Todos nós fazemos isso quando falamos ou escrevemos. O pior é quando se faz o recorte omitindo-se informações fundamentais para que se entenda todo o processo.

A reportagem não falou, por exemplo, que o funcionário que aposentou com os R$7.500,00 pagou alto durante toda a sua vida laborativa para isso. E muito alto para uma previdência própria do funcionalismo público. O Jornal deveria ter criticado é o fato de que o salário mínimo no Brasil é uma vergonha, é baixíssimo, e que a maioria dos brasileiros contribui, geralmente, sobre o salário mínimo, vindo a aposentar-se somente com esse salário ou pouco mais que isso. O Jornal não falou que o governo precisa elevar o salário mínimo a um valor mais justo, precisa fazer com que os brasileiros contribuam com uma previdência que lhes garanta uma aposentadoria mais condizente com a sobrevivência na terceira e mais avançada idade. O problema não é a maioria dos funcionários públicos que paga caro por toda a vida para ter uma aposentadoria mais tranquila. Os problemas são outros dois: 1. a grande maioria dos brasileiros ganha pouco e aposenta-se com menos ainda; 2. uma minoria de funcionários públicos (os do alto escalão) ganha muito e aposenta-se com muitíssimo. E, o que é pior, muitos desses funcionários do alto escalão acumulam ganhos e aposentadorias que vão muito além do teto permitido pela nossa Magna Carta, a nossa Constituição. Mas isto aqui é apenas um detalhe, pois esta carta já não é tão magna assim num país em que as leis vão e vêm como folhas de bananeira, ora atendendo a esses ora a outros interesses. Mesmo que as leis sejam firmes, elas só valem ao bel prazer das interesseiras interpretações.

O Jornal não falou nada disso, porque estamos na era do discurso defensor da ideia de que, para melhorar o país, temos que tirar direitos e não melhorar os precários e vergonhosos que existem para a maioria.

E vale lembrar que o nosso governo, tão preocupado com os cofres públicos, nem fala em reforma tributária. Isso num país afogado em crise, um país onde as grandes indústrias têm regalias e não pagam os impostos que deveriam pagar. E mesmo assim elas estão dentro das leis brasileiras, cujo sistema tributário é vergonhoso.

Nesses tempos de perigo, de mídias nada confiáveis, perigosas e perversas, devemos ainda nos assombrar cada vez mais. Afinal, um país que permite um golpe parlamentar só pode esperar sangue-sugas no poder. Vampiros com olhos ofuscados por cifrões desumanos, amantes do mercado impassível e absoluto. Olhos de Drácula.


© Evaldo Balbino 2017