Do livro Moinho

Do livro Moinho

domingo, 17 de junho de 2018

Tia Turca

By Maurício de Sousa

Evaldo Balbino

No início de cada aula, na 2ª série da Escola Estadual Assis Resende, copiávamos do quadro a ficha escolar composta pelos nomes do estabelecimento, da diretora, da professora, da série e do aluno. Essa atividade se repetia de segunda a sexta-feira toda semana. Com isso os cadernos ficavam bem arranjados e, diziam, íamos afinando a escrita. O nome da professora não se perdeu da minha memória: Maria Salomão. Mas o que ficou mesmo foi o Tia Turca, pois assim era que a chamávamos.
Abrimos aquele ano letivo de 1985 no prédio que era o Ginásio Nossa Senhora da Penha, pois o Grupo Escolar Assis Resende estava em reforma. Só alguns meses depois é que fomos para o antigo edifício lá no alto da cidade. Antes eu gostava de correr pelos corredores do ginásio, mas meu sonho mesmo eram as tábuas-corridas do Assis Resende. Meus pés concretizaram isso quando professores, alunos, móveis, livros, papéis e tudo o mais fomos transportados para a escola anciã. Chão novo, tintura renovada, jovens bancos e carteiras, uma biblioteca com livros novinhos, janelas de madeira e vidro abertas com ares antigos. E o chão de tábua-corrida, assoalho correndo sobre um porão escuro que se via pelas frestas. E eu vislumbrando meu medo escondido lá embaixo.
Tia Turca se mudou conosco para a velha-nova edificação. Nossa sala de aula ficava do lado de cima do prédio, ladeando com a Santa Casa e com o Necrotério. E na escola vicejavam saúde e vida de meninos cheios de agitação para dar e vender.
A professora era brava, sabia domar a desordem dos educandos com olhos graves e austeros gestos. Mas também alcançava nos amar com sentimentos nobres. Não tinha jeito de não aquietarmos o facho diante dela e do mesmo modo não havia como não gostarmos do seu jeito afável de cobrança. Copiava as lições no quadro e depois ia passando pelas carteiras, tirando dúvidas, apondo outras informações, intervindo nas dificuldades dos nossos passos. Hoje repasso o sério trabalho que ela fez conosco naquele ano. Sei deveras que ela contribuiu com a construção das bases da minha cultura e com as de meus colegas.
De vez em quando nos levava para a biblioteca, onde eu me deliciava com os livros de literatura que tinham acabado de chegar à escola. Foi ali, nessa época, que li A arca de Noé, de Vinicius de Moraes. Na capa da edição, uma montanha com a arca no topo e com muitos, muitos animais por todos os lados, nas escarpas descendo, sobre a arca, no ar, alguns até quase indo para além das bordas da portada. Foi também ali que minha gula e minha devoção conheceram O menino poeta de Henriqueta Lisboa e o Erico Veríssimo para crianças: viajei pelas aventuras de Tibicuera, escutei a música na barriga do urso, brinquei com os três porquinhos, conheci a vida do elefante Basílio e, mais que tudo, participei das aventuras do Avião Vermelho.
Certa vez minha mãe não pôde ir à reunião de pais para pegar o boletim com o resultado bimestral. Um boletim num envelope bonito, onde eu havia colado Magali ofertando uma caixa de bombons vazia para sua mãe. Que era dos bombons?! O gato comera, ou melhor, a gulosa Magali os tinha consumido. Mamãe acabou indo dias depois daquela reunião. Quando ela chegou à escola, nossa aula estava acontecendo justamente na biblioteca. Bateu à porta, e tia Turca foi recebê-la. Ambas passaram entre as mesas dispostas irregularmente pela grande sala ao lado das prateleiras, e os olhos de mamãe me procurando entre tantos meninos até me encontrarem, atentos.
As duas pararam rente à mesa próxima ao quadro. Enquanto lhe entregava o documento, a professora foi tecendo elogios ao aluno que eu era e dando-lhe parabéns por educação tão bem cultivada lá no canteiro do berço. Os olhos de minha mãe me olharam, brilhando de alegria e ao mesmo tempo alfinetando amorosamente o meu frágil corpo, porque discordavam até certo ponto do que dizia a mestre naquele momento. Era como se estivesse pensando: “Ah, se a dona Maria comesse um saco de sal junto com esse menino todo dia! Ia ver como ele corta uma bagunça que não tem jeito!”.
Bem convencido, no entanto, eu sabia que minha mãe voltaria orgulhosa para nossa casa. Mesmo pensando assim, ela me esperaria com o boletim alegre em suas mãos.


© Evaldo Balbino - 2018