Do livro Moinho

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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Uma sombra sobre Temer: malabarismos no Olimpo da política brasileira


Evaldo Balbino

Os três poderes do nosso país, em qualquer uma de suas partes e de seus patamares, causam inveja em qualquer circo. E quando olhamos para os altos patamares desses poderes, aí sim um Cirque du Soleil fica no chinelo. Perde o seu brilho solar, porque o ouro do poder (com olhos grandes de cifrões) fala mais forte. Espero que se entenda aqui essa comparação, pois o brilho da arte do Cirque du Soleil é inapagável. Só que em termos de malabarismo, no mau sentido da expressão, a política brasileira se sobressai.
Li ontem na Carta Capital sobre uma sombra que rodeia o presidente em exercício Michel Temer. Trata-se de um jantar no Jaburu em 2014, onde o então vice-presidente promoveu um encontro para captação de fundos de campanha. Além do anfitrião Temer, participaram desse festim, num espaço público e com recursos públicos, os convivas Eliseu Padilha (hoje chefe da Casa Civil), Marcelo Odebrecht (presidente da Odebrecht condenado a 19 anos de cadeia pela Lava Jato) e Cláudio Melo Filho, ex-lobista dessa empresa.
O encontro era segredo. Não de estado, mas de “amigos” cujas mãos “se ajudam” nos bastidores. Era segredo, mas não é mais. Foi justamente Melo Filho, em delação premiada, que primeiro atirou ao vento as principais linhas da trama ocultista que se operara nesse jantar e depois dele.
Para detalhes dos desencontros entre os fatos, declarações que não se casam, meneios dos discursos que tentam sair pela porta dos fundos numa hesitação que demonstra culpa no cartório, remeto o leitor à excelente reportagem “O presidente assombrado”, assinada por André Barrocal (Carta capital, 05 de abril de 2017, p. 16-21).
Na mesma reportagem, lê-se que o julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral da chapa Dilma-Temer está previsto para o dia 04 de abril de 2017, terça-feira. Percebe-se que, apesar de a revista que tenho em mãos ter vindo às bancas agora, na semana do dia 04 de abril, a redação da reportagem é da semana anterior. Já vemos nessa reportagem, como em qualquer texto arguto e comprometido com a política de nosso país, o que podemos chamar de quase profecia: “Boatos em Brasília indicam ainda que o julgamento poderá ficar inconcluso por meses, graças a manobras regimentais”. Ora, pois não foi isso o que aconteceu justamente ontem, dia 04 de abril? O TSE deu mais prazo para as defesas e suspendeu o julgamento, que poderá ser retomado somente em maio.
Nada mais providencial, para o Palácio do Planalto, do que essa decisão. Mas não nos enganemos: acasos não existem. A suspensão do julgamento ocorre no exato momento em que dois dos sete ministros estão prestes a deixar o TSE, pois seus mandatos na Corte se encerram um no próximo dia 16 de abril e o outro em 5 de maio. Os dois novos ministros, por lei, serão indicados pelo presidente em exercício. Provavelmente, então, os dois novos julgadores do presidente Temer serão os escolhidos por ele.
O que se pode esperar dum processo presidido por Gilmar Mendes, escancaradamente íntimo dum réu a quem cabe julgar – Michel Temer? O que se espera dum julgamento cujos dois novos julgadores serão escolhidos justamente pelo próprio e mesmo réu? O que se espera desse baile que se realiza nos altos do Olimpo?
Os deuses vão fazendo malabarismos, barganhas, conchavos, trocando cetros e poderes. Enquanto isso, o povo a tudo assiste (ou não assiste) do outro lado, mais abaixo das montanhas que o separam do Olimpo.
        Aliás, pensando assim, me lembro bem dum povo, lá em 1984, brigando nas ruas por “Diretas já” e o congresso votando o contrário. Lembro-me de pessoas em 2016 enfrentando forças policiais de fora da Câmara dos deputados, enquanto estes (do outro lado e protegidos por uma parede intransponível de vidro) brindavam com suas taças e comiam de lautas mesas uma fartura vinda de dinheiro público. Alguns deputados e funcionários da Casa até tiveram tempo para tirar fotos dos confrontos lá de fora. Talvez quisessem confeccionar cartões-postais da linda e excludente cena proporcionada pela política brasileira.

© 2017 Evaldo Balbino

10 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado, Luciana! Que bom que você gostou. Um forte abraço.

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  2. Belíssimo texto, Evaldo. Já te conheço como literato, celebro, agora, tua participação política nesse momento tão crucial da sociedade brasileira.

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    1. De fato, caro Francisco, não devemos nos calar. O silêncio, muitas vezes, é necessário; outras, não. Chega a ser perigoso. Um forte abraço.

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  3. Só mesmo a ironia nos pode salvar.

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    1. Sim, Renata. A ironia, a poderosa ironia! Um forte abraço.

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  4. Adoro seus textos....hoje revisitei para iniciar rindo gostoso....estava precisando.....

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    1. Querida Maria Generosa, muito grato por sua visita. Um forte e amigo abraço!!!

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  5. É professor, dizem que aqui, tudo termina em pizza! Justiça? só para pobres e descamisados. E o jeitinho brasileiro, de onde terá vindo? dos altos escalões do Olimpo ou da massa ávida por sobreviver? Obs. Ramoel... sou eu José Leomar de Brito - curso de capacitação ambiental de 2014, que queria se dedicar a escrever livros. Entrei na fileira dos escritores...já vou seguindo.

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  6. Oi, José Leomar, tudo bem? De fato, aqui tudo (ou quase tudo) acaba mesmo em pizza. Mas Vamos lutando, né?! E escrever é um modo de lutar. Abraços grande para você. Ah, e continue sim escrevendo. torço por você. Abraços.

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