Verso do poema "(Des)motivo" - do livro "Moinho" - 1ª edição 2006; 2ª edição 2021

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O que cintila no escuro

Evaldo Balbino

          Meu amigo Edilson Miranda postou no Facebook um poema seu intitulado “Às palavras surgindo das trevas”. O texto fala do amor que vem e atormenta, do amor que chega e causa desequilíbrio, espera, ansiedade, desejo incontrolável de amor e de amar.
          Na ilustração, uma cabeça cheia de palavras, atravessada vertiginosamente de letras tresloucadas numa torrente forte, invencível. E da boca semiaberta essas palavras e letras saem, também numa corrente irreversível para o mundo. Assim é o poema, uma enxurrada de lamento, de questionamento sobre o porquê de o amor chegar tão doloroso por justamente causar dor e excitação que incomodam. Não sei de quem é o desenho. Se do autor do poema ou se de outra pessoa atormentada por palavras ou, por que não?, também pelo amor.
          Quem ama fala. Seja com gestos ou palavras, claros ou esmaecidos. Quem ama se denuncia, sem mais nem menos, mesmo quando não quer. Uma fuga do olhar, um pensar que não para facilmente, uma obsessão do pensamento sem fim, o recuo do corpo, o desejo de se ver bonito diante de quem se ama. E quando fala com palavras, o amor também titubeia ou é firme, relutante ou decidido. De qualquer modo, calmo ou irrequieto, tímido ou atrevido, o amor é coisa que nos torna incomodados, é motor que nos move ao nosso bel-prazer. Nesse sentido, o amor pode se confundir com a paixão, sem percebermos relação de anterioridade e posterioridade entre esses dois sentimentos.
          Falemos aqui especificamente do amor que nos invade, que chega e nos queima o nosso frio sem pedir licença. Falemos a partir das palavras do referido poema de meu amigo.
          A Primavera, a alegria, o perfume, as cores, a leveza, a brisa, o acalento. Tudo isso poderia ser os modos de o amor se achegar a nós. E ele de fato chega por esses caminhos. Mas não só assim. Outras alamedas lhe são também passagem. Outros caminhos servem também aos pés amantes e furtadores; a esses pés que vêm e roubam, na calada da noite, a nossa alma, o nosso corpo.
          Aí, nesse ponto, quando o ladrão de nossas vontades se aproxima sem pedir consentimento, amor e paixão se confundem. A afetividade que tem o outro em conta, que se preocupa com seus sentimentos, com seu estado de espírito e corpo, com sua vida se vai bem ou não, com seus problemas – essa afetividade não vai embora, não se apaga na escuridão do egoísmo. É nesse mesmo ponto de advento inconsentido do amor que o altruísmo não morre, não desaparece, mas convive de modo tenso com um apego próprio, com a obsessão de se satisfazerem os próprios desejos. Amamos o outro; ele é objeto do nosso desejo. Sem ele, ficamos sem chão, nossos pés caminham descontrolados, e nós naquela ilusão – boa ou má (depende do ponto de vista) – de que sem o ser amado não temos arrimo. E o nosso mundo parece querer desabar a qualquer momento.
          A erupção em nós se expande, o vulcão transborda e um fogo ardente alastra-se em nossa existência corporal e espiritual, como se diz no poema do meu amigo. Essa chama nos "queima por dentro".
          Nesse sentido, o amor, vindo por esses caminhos enviesados, sem pedir licença, bem na calada da noite, é um ladrão astuto e fascinante.  Esse mesmo amor nasce do escuro em nossas vontades. Não vem de uma arbitrariedade do indivíduo. Viramos marionetes, títeres avassalados. É desrazão tudo isso?! Que seja. Também de ilusões nos erigimos.
          Vê-se, então, que é também das trevas que vêm o calor, a erupção, o fulgor. O nosso não consentimento não basta para que o outro não nos invada, nem que seja em pensamento. Nosso poder de relutar existe, mas arrefecido. Chega em muitos casos a quase se apagar. Fica sem luz até. A escuridão, no entanto, não é ausência de luz. Ela é a presença do fogo. O escuro também ama. Do mesmo modo queima.
          O poema do meu amigo me fez pensar tudo isso. Ilusões!? Elucubrações de um mero ser que não é psicólogo, que sequer consultor sentimental chega a ser?! Que seja tudo isso. Palavras me atravessam. E ciência nenhuma me serve nessa hora de enxurrada me lavando e levando.
          Palavras me carregam, como os sentimentos que me domam e nos domam a todos. Mais fortes são essas doidices em alguns momentos, mais brandas em outros. Alguém já deve ter escrito que nem só de razão vivem as pessoas, mas também de toda as loucuras possíveis desta vida. Se ninguém escreveu isso, escrevo agora.

© Evaldo Balbino 2018


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Anunciação


Anunciação era professora, diretora, inspetora, delegada, juíza, promotora... O que ela quisesse ser.

Regina Coelho[1]

Usava blusa ou vestido com mangas compridas ou curtas. Sua roupa compunha-se com sandálias de abotoar nos pés. Gostava também de salto, mas era um tamanquinho bem leve. No pescoço levava quase sempre um colar, que mais parecia um terço. Com lenço na cabeça, sombrinha a tiracolo (fazendo sol ou chuva), ela usava óculos grandes, professorais. E seus gestos diziam de sua sabedoria, das posições sociais que ocupava no tocante ao Ensino.
Não estou certo se Maria Anunciação de Jesus tinha leitura. Mas com os grandes óculos postados e os olhos firmes (em jornais, revistas, livros e papéis avulsos ou acondicionados em pastas), ela se concentrava. Seus dedos ágeis tocavam as letras. E a mulher lia: não sei se o que estava realmente impresso ou se palavras outras que sua mente garatujava.
O seu dedo anular não andava desnudo por Resende Costa. E o anel que levava tinha brasão. Não do sangue nobre que passa de pai para filho, mas de uma formatura a que ela acedera, conforme seu testemunho, depois de muito estudar.
Com o anel de formatura marcando presença, suas mãos seguravam papéis e pastas. Muitas vezes eram jornais mais que dormidos, com notícias do mundo já passadas. A tudo ela segurava junto ao peito. A mão direita firmando o saber no lado esquerdo do tórax, bem rente ao coração.
O seu nome era ignorado por muitas pessoas. Por várias outras, não. Mesmo assim, entre todos sempre havia bocas sem controle, um sadismo sem peia. E apelidavam-na de Ponte Preta, Maria Fumaça e outras alcunhas afins. O apodo que lhe ficou mesmo, o que angariou fama na pequena cidade, foi o de Maria Fumaça.
Incomodavam-na as brincadeiras de mau gosto. Tanto que bradava com os provocadores. Não obstante o incômodo, ela, paradoxalmente, demandava tais provocações, chegando mesmo a não admitir que não percebessem sua presença quando passava, por exemplo, perto de crianças desordeiras. No fundo, adorava quando mexiam com ela. Os seus divertimentos eram dois: o de fazer-se “professora, diretora, inspetora, delegada, juíza, promotora... O que ela quisesse ser” e o de ser a atenção do sadismo de muitas pessoas, aquelas cujas línguas se julgavam inofensivas em suas brincadeiras.
Em 1992, Maria Anunciação de Jesus passou a viver no Lar São Camilo. Com a idade já bem avançada, pôde encontrar ali os cuidados necessários que a passagem do tempo demanda de todos nós.
Nessa casa de idosos, minha mãe foi conversar com ela certo dia e lhe perguntou se estava tudo bem. “Ah, tô, minha fia! Tô sim.” E em seguida, corrigindo-se no português: “Só que estou afastada do Assis Resende [Escola]. Tanto que fazer parado! Os alunos e professores sem inspeção! Só Deus para tomar conta, né?!”
Estive com ela, também no Lar São Camilo, no segundo semestre de 2016. Fui lá com minha irmã e sobrinhas para fazermos com os idosos uma pequena festa. Levamos guloseimas, com o devido cuidado de pensar nos casos que demandavam dietas específicas. A confraternização foi boa, deveras. Até encontrei uma simpática senhora que grudou em mim, me abraçando e me beijando a torto e a direito, dizendo que eu era o seu noivo. E que depois ainda ficou lamentando por ter um nubente tão desleixado que não quis lhe beijar a boca. Vejam só! Mulher tão alegre, de vida tão esfuziante, e com energia para dar e vender!
Em certo momento, numa fuga da “minha noiva”, fui ao quarto de dona Anunciação. Ela já estava impossibilitada de se levantar e, portanto, não fora ter conosco no simples festejo. Com olhos esbranquiçados, já não enxergava mais. Não por praxe, mas por um amor espontâneo, indaguei-lhe como estava. Me disse que não se encontrava bem e me pediu que rogasse a Deus para que ela pudesse ter o necessário e final descanso.
Meses depois ela fechou os olhos já cansados de tanta vida. Nos deixou no dia 20 de janeiro de 2017. Se esperasse por mais uns 65 dias, teria entrado na vida eterna na mesma data em que, pela tradição católica, o arcanjo anunciou à Virgem o advento do Cristo. Isso, porém, não importa. Sendo o calendário criação humana, qualquer dia é dia de nascer. E Maria Anunciação anunciou-se às portas do Céu. Agora sem cegueira, sem pernas fracas, mas ainda com seus óculos professorais e eternos.


[1] Do artigo “Tempos de Anunciação” – Jornal das Lajes, 16 de fevereiro de 2017. Disponível em https://www.jornaldaslajes.com.br/colunas/contemplando-as-palavras/tempos-de-anunciacao/1001.