Verso do poema "(Des)motivo" - do livro "Moinho" - 1ª edição 2006; 2ª edição 2021

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023




Pré-venda do livro

 

Devoro-te 
(poesia)


 do autor Evaldo Balbino

Com referências ao cenário artístico e literário brasileiro, Devoro-te, de Evaldo Balbino, é intenso e envolvente. Como o título revela, a obra é canibalista: devora aspectos da cultura brasileira e devolve ao público em forma de poesias profundas e instigantes. Devoro-te é uma obra-convite ao leitor para se aprofundar em tudo o que é poético e em manifestos que ditaram as transformações no meio artístico, podendo ele absorver tudo o que pode ser oferecido por ela.

 

 

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A mulher plural em "As mulheres em mim", de Terê Silva



Terê Silva pontua de imediato, no seu livro As mulheres em mim, a metamorfose como constitutiva do ser. No caso, do ser mulher. Já na 1ª orelha da brochura, comparece esta imagem: "Como borboletas multicores / Visitando as inúmeras flores / Em um imenso jardim / Assim são as minhas metamorfoses". No texto de apresentação da obra, Thayane Renata Silva Andrade nos diz que "Este livro não se destina somente às mulheres. Ao lerem os poemas que o compõem, os homens terão a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a essência feminina, muitas vezes consideradas [as mulheres] por eles como bastante complicadas" (p. 6). A mesma prefaciadora, na sequência, aponta o poema "Mulher Lua" como exemplo de "uma mulher em constante modificação" (p. 6). Ora, esse processo contínuo de modificações nega as essências. Mesmo que o sujeito poético de Terê Silva assuma às vezes a postura da essência, no todo o que ressalta em seu trabalho poético é a mutabilidade, ou seja, o reverso da concepção ontológica da existência.

Na "Dedicatória", surgem expressões que apontam para a ideia da pluralidade, da diversidade que compõe o ser feminino, tais como "representações daquelas que em mim se manifestam" e "a multiplicidade das mulheres que vivem em cada uma de nós". Assim, diferentes mulheres se mani-festam na poesia de Terê Silva. Pela manufatura da poesia, eis a festa das identidades: "Paradoxos se instauram em meu ser" (p. 52).

O livro divide-se em pequenas 19 partes, sendo que em cada uma comparecem predominantemente 02 poemas, cada qual representando, um em relação ao outro, o extremo oposto de uma representação. Assim a voz poética é atravessada por binarismos, por sentimentos, ações e posturas opostos em convivência: inspiração e poesia, aço e palha, guerra e paz, coragem e temor, fortaleza e fragilidade, suficiência e carência, doação e apego, tolerância e severidade, coerência e contradição, esperança e decepção, sucesso e fracasso, orgulho e humildade, ciúme e desprendimento, Sol e Lua, clamor e silêncio, leitura e escrita, infância/juventude e maturidade, sonho e realidade...

Na pluralidade feminina, a imagem "mulher de fases" se aproxima da Lua sem deixar de ser o Sol, e as metamorfoses se encadeiam: "As manifestações em mim se revelam / Inesperadamente / Constantemente / Nuances de diversas mulheres / Em uma só" (p. 11). O diverso na unidade, uma tensão que não se resolve e na qual tudo, ao fim e ao cabo, é aparência e não essência: "Estas mulheres [imperfeitas] se apresentam sempre / Retiram as máscaras da aparente perfeição" (p. 13). Em meio às contradições da vida, o que se tem é "uma luta constante / entre o que revelar e o que esconder" (p. 19). A despeito da multiplicidade, eis que surge o Sol abraçando a Lua, um encontro não a provocar eclipse e apagamento, mas a luminosidade da aproximação de contrários: "Entre o dia e a noite, / o sol abraça a lua / e se despede / até um novo amanhecer" (p. 73).

Reconhecendo os próprios defeitos e buscando a perfeição, a mulher "Vence suas batalhas interiores" (p. 27) e, num movimento para o exterior, sonha "com um mundo mais humano" (p. 28). Entre a coragem e o temor, a fortaleza e a fragilidade, vê-se um ser feminino forte em suas constantes quedas. E da constante carência, a busca de suficiência, pois, apesar da constatação de que "Sinto falta de um tempo não vivido" e de que "A carência afetiva me afeta" (p. 40), temos nessa poesia a mulher que persiste: "Refazendo-me para sempre me proteger" (p. 39). A imagem mais clara da carência sentida se mostra na flor murcha e seca, na ideia de abandono e solidão: "Flor murcha há muitos dias sem regar / Sensação de abandono e solidão" (p. 56). A persistência feminina se mostra neste trecho: "O sucesso não é / ausência de fracasso / e, sim, persistência diante da realidade" (p. 61).

O papel escritor da autora se mostra dividido entre o fazer poético como técnica e como inspiração, prevalecendo esta segunda postura no seu trabalho escritural. O sentimento fala mais alto, pois aí o sujeito feminino passa sua vida pelo coração e transforma "as palavras em poesia". Há busca de técnica sim, mas o sentimento é o guia, a condução da escritura: "Pela magia da inspiração / Que do nada surge / Repentinamente, invade o meu ser / E me faz escrever / E me faz viver" (p. 17). A escrita e a vida se constroem pelo poder da inspiração.

Num jogo entre as palavra "palha" e "aço", a poeta chega a "palhaço", para dizer das fraquezas como fraturas expostas, do caráter de aço na convivência eventual e social, da encenação na vida como encena um palhaço cujo sorriso pode esconder uma lágrima: "Sempre PalhAÇO / Na vida / Sempre PalhAÇO / Da vida" (p. 23). Num jogo sintático de repetição e na fusão de palavras, a caixa alta fica, toda e inteira, com a palavra AÇO, o que reforça, nessa mulher representada, a fortaleza cultivada ao longo da vida.

Nas representações das multifaces femininas, encontramos em Terê Silva a poética da busca do próprio eu. "Escondendo-me em mim mesma / Revelando-me a cada encontro / Comigo em meu silêncio / E com o outro" (p. 12). O silêncio é o estado rumoroso do ser, aquela duração da vida em que cada um se ouve, escuta a própria voz interior: "Crio um novo momento / um novo encontro comigo / no silêncio do meu silêncio" (p. 59). Eis a expressão máxima desse verdadeiro silêncio dentro de si mesmo!  Tão importante esse silêncio, no sentido aqui tomado, que ele acaba por ser o encontro do sujeito consigo mesmo: "o silêncio / é o meu encontro / comigo" (p. 77).

Na busca do autoconhecimento, surge o reconhecimento da própria pequenez diante da vida. E uma humildade franciscana embala os versos de Terê Silva, nos quais comparece a constatação de que há muito para se aprender, num eco da conhecida filosofia socrática: "Nada sou / Nada faço / Nada sei" (p. 68).

Na busca do eu, o encontro com o outro. O autoconhecimento caminha juntamente com o conhecimento do outro. As preocupações com a alteridade se fazem presentes nesse eu feminino multifacetado. Além do já mencionado sonho "com um mundo mais humano" (p. 28), a aceitação do outro leva à tolerância, apesar da severidade. Uma tolerância aprendida "a duras penas" (p. 47), porque a vida, a necessária sociabilidade, nos demanda tal comportamento. Se o silêncio, conforme já visto, é busca do eu, não deixa de ser também ponte com as outras pessoas: "Meu silêncio ecoa em muitos silêncios / Como o das pessoas que se calam / Como o das pessoas que falam sem serem ouvidas / Ou se mantêm mudas mesmo gritando" (p. 80). Tais versos comungam sentimentos de solidão, fazem do sujeito mais um entre tantos: todos nós dividindo uma existência solitária sim, mas também solidária. As vozes dos que não são ouvidos comparecem nos versos de Terê Silva.

Afinal, fazer poesia não é isto?! Tecendo a palavra poética, fazemos o movimento de nós mesmos para os outros, sempre via beleza. Escrita e leitura se encontram — são gestos de convergência, de partilha. A leitura "preguiçosa" e "aconchegante", a "leitura viagem", a "humorística" e a "descontraída" (p. 83) — ou até mesmo qualquer outro tipo de leitura —, todas essas formas de ler nascem de escrituras e são escrituras. No prazer do texto, para utilizarmos aqui uma expressão do crítico e escritor francês Roland Barthes, todo ato de ler é também de escrever. As palavras de Terê Silva "se abraçam umas às outras" para, juntas, estruturarem "uma nova mensagem" (p. 84), uma voz múltipla para o silêncio.


As mulheres em mim
Terê Silva
Editora Versejar
São Paulo
100 p.
2020

© Evaldo Balbino — 21 de setembro de 2021

Nossa cidade, nosso futuro: contação de história e conscientização em Éllen Santa Rosa


Minha cidade, meu futuro!, livro infantil de Éllen Santa Rosa com belas ilustrações de Dam d'Souza, é história contada com desenvoltura e de modo direto. De enredo simples, mas com profundidade de tema, pois discute questões socioambientais concernentes às cidades grandes.

Miguel é um garoto esperto, consciente sobre o mundo que habitamos. Saiu há pouco da roça para morar na cidade grande. Toda a narrativa se concentra num passeio dele com o avô — o primeiro que realiza, agora como morador da cidade, pois antes ele foi ali apenas visitante. E já é dito de cara ao leitor que o avô dizia ao neto que ali, na cidade grande, estaria o futuro do garoto.

Mas a cidade tem problemas causados pelos humanos: ônibus lotados, calor forte por causa da poluição, poucas árvores, ruídos excessivos, céu escondido pelos prédios altos, lixo espalhado, mosquitos atraídos pelo lixo.

Pequeno ainda, Miguel já aprendeu na escola rural coisas importantes. Uma delas é que o mundo precisa do nosso cuidado e que cuidar do mundo é também cuidar de nós. Assim ele fala ao avô quando ambos estão sentados no banco de uma praça e os olhos infantis estão vendo lixo esparramado atrás do banco: "— Então precisamos fazer alguma coisa agora, no presente, senão não teremos um bom futuro por aqui não..." (p. 12).

Depois desse episódio, o menino, instado pela voz do avô, começa a dar sugestões do que pode ser feito para serem melhoradas as condições ruins da cidade. Tudo questão de atitudes humanas mais adequadas. Empolgado com a própria fala, o garoto vai dizendo tudo mais alto e, com isso, vai chamando a atenção das pessoas que passam pelo lugar. Vão parando para escutá-lo.

Da fala infante, as atitudes de todos. As palavras do garoto mostram a importância da Educação, no espaço mesmo escolar, e de como as sementes plantadas pela Escola, quando bem semeadas, podem ser espalhadas alhures e render bons frutos. Mesmo que isso seja a longo prazo, não importa!

Destaque-se que a pequena história do passeio de Miguel com o avô não se prende apenas a aspectos negativos da cidade. Os montes que rodeiam a urbe, os parques tantos, as praças com brinquedos para as crianças — tudo isso compõe os elementos descritivos dados ao leitor.

Somam-se a essa positividade as ilustrações de Dam d'Souza. Reforçam elas a diversidade étnica dos moradores da cidade. Miguel e o avô são negros. Personagens figurantes pardas e brancas comparecem nas imagens. A graciosidade dos traços mostra casas e prédios, automóveis, casais dividindo a vida, o verde da natureza em meio à secura do concreto, uma senhora alimentando pombos na praça, uma personagem fazendo cooper nesse mesmo espaço, faces alegres por uma cidade melhor.

Deve-se realçar que, nas páginas 8 e 9, a cidade em sua secura urbana e o rosto em destaque e triste de Miguel (no lado esquerdo) contrastam com a imagem de dois pequenos vasos pendendo de um poste (no lado direito), como se fossem lampiões, cada um de um lado como que ligados por uma balança em equilíbrio. O verde com o verde, vida pura. E a explosão do verde, no campo imagético, se dá em duas páginas (p. 26-27) no final da história, quando se vê a cidade rodeada por montes e com casas entre fartos verdes.

Minha cidade, meu futuro! é história em que o verbal e as ilustrações se conjugam para dizer, com desenvoltura, sobre um possível mundo melhor para todos: a nossa cidade, o nosso futuro.

© Evaldo Balbino — 21 de setembro de 2021

domingo, 19 de setembro de 2021

A escritura amorosa e humana em "Mãe, a ti, nossos primeiros versos"



Nascido no Projeto Lecriar, do Colégio São Mateus em Montes Claros, Minas Gerais, o livro Mãe, a ti, nossos primeiros versos (Montes Claros-MG: Editora Gráfica Millennium, 2019. 76 p.) conta com prefácio assinado pela professora-pesquisadora e mestre em Literatura Brasileira, Noêmia Coutinho Pereira Lopes. Coordenado pela professora Joyce Aparecida Andrade Freitas e levado adiante pela professora Pollyanna Luiza Corrêa Ruas, o projeto busca despertar e consolidar nas crianças o amor pelas palavras, o que lhes garante o direito à literatura, nos termos de Antonio Candido.

A prefaciadora Noêmia abre o lindo livro com palavras de Mirna Pinsky em epígrafe, uma frase que nos diz exatamente das palavras fazendo pontes entre as pessoas, pois nossas palavras, as primeiras e pela vida afora, sempre bebem nas águas alheias ("O que veio primeiro foi o encantamento pelas palavras de outros."). Daí a importância da alfabetização e do letramento, pois, em contato com outras vozes, vamos erguendo as nossas próprias. E por que não fazer isso por meio da poesia? Afinal, o poetar nos habita a todos!

As organizadoras do livro, Joyce e Pollyanna, tecem uma apresentação para a brochura, e o fazem buscando em Paulo Freire a premência de que nós educadores temos consciência: é preciso que a leitura seja um ato de amor. E foi esse amor que levou as professoras Pollyanna, Joyce e Noêmia (respectivamente, ministradora das aulas, supervisora e orientadora) a estimularem os educandos a conhecer, aprender e vivenciar a escrita de poemas. Aqui a escrita surge como um processo de construção social e de emancipação do sujeito que, via linguagem, se constrói e erige seu lugar e sua expressão no mundo.

Os autores-mirins são vários, e variada é a produção que se nos oferece. Com o sempre amor no manuseio das palavras.

Convidados a caminharem pela estrada da leitura e da escrita, os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental I (alunos do 4º e do 5º ano, cuja faixa etária, pois, gira em torno de 9 a 10 anos) aceitaram a poesia e se puseram nas trilhas das palavras, com versos rimados ou não, homenageando as mães. Fotos dos discentes alternam-se com os poemas. E estes, carregados de amor pelas mães, poetizam as relações e a vida.

Os versos são predominantemente curtos, em sua maioria perto das sete sílabas. É a presença da redondilha a mostrar a popularidade dessa dicção, duma oralidade tão cara em nossas vidas e com a qual as crianças convivem desde cedo. Daí a facilidade com que a garotada aprende facilmente os redondilhos.

Iniciando-se na escrita de metáforas, os autores-crianças já vão criando imagens para as mães representadas nos poemas. Assim ocorre em versos simples como estes, nos quais a alegria se associa à primavera por oposição à fera — e tudo isso é imagem da mãe:

Mãe é pura alegria!

É alegria todo dia.

Às vezes, é uma fera!

Em outras, primavera. ("Amor de mãe", p. 31)

Atrelando-se à alegria e à positividade do ser materno, surge a mãe-herói, amazona forte e protetora, o que na tradição — em termos de fortaleza — é atribuído frequentemente aos homens e não às mulheres:

Toda noite você me dá um beijo

e realiza o meu desejo.

Em meu sonho, ergue a espada.

Amazona mais amada. ("Mãe", p. 17)

O ser da mãe é associado, também em linguagem figurada, ao brilho. Metonimicamente, parte-se do sorriso da mãe para dela se falar, do brilho do sorriso, do brilho  da mulher-mãe. E a comparação com o diamante surge, vencendo na balança poética a existência materna:

Seu sorriso é tão brilhante;

vale mais que um diamante!

Seu amor é tão gigante,

bem melhor que um romance. ("Mãe", p. 17)

A imagem do brilho, da luz, comparece na ideia do parto, desse ato de dar à luz um ser infante. Mas aqui, nos poemas de Mãe, a ti, nossos primeiros versos, as crianças têm voz, voz poetizada, e não são de modo algum in-fantes (sem fala). O escrever como falar, como ato existencial. O gesto de dar à luz um filho — e também de dar-lhe a luz — é do mesmo modo o ato de conduzi-lo pelos meandros dessa mesma luminosidade:

Você que me deu a luz

e agora me conduz. ("Mamãe", p. 45)

Essa condução é do nível dos afetos, mas também, sem dúvida alguma, se relaciona com o estar no mundo e estar envolvido em tudo o que ele nos coloca. Assim, por exemplo, se fala da educação num mundo consumista:

Quando vamos ao shopping

e eu insisto em gastar,

você diz: "na volta posso pensar",

mas eu sei que não vai comprar." ("Nossas mães", p. 49)

Num exorcismo da solidão, a qual já nos segue desde a nossa infância, levanta-se o desejo da presença materna, presença que nos dá sentido para a vivência:

Quero você sempre comigo.

Quando você sai,

deixa meu coração partido

e a casa fica sem sentido. ("Te amo, mãe!", p. 25)


A não presença da mãe é abertura para o sentimento de autoexílio, ausência de si mesmo que o filho experimenta:

Mãe, em vez de ficar exilado,

eu prefiro ficar ao seu lado. ("Mãe", p. 37)

Tal sentimento negativo é afugentado em outros poemas, quando se tem certeza da presença (mesmo que na ausência) da figura materna:

Quando eu estiver sozinho no mundo,

sua luz vai me guiar.

Você é a mais importante!

Sempre vou te amar. ("O valor das mães", p. 51)

 

Quando a noite chega,

ela me abraça e me beija

e mesmo em meu quarto sozinho,

sei que ela não me deixa. ("Mãe", p. 69)


Os poemas dos jovens escritores não deixam de representar o lado humano do amor, pois até mesmo os sentimentos filiais e maternais são atravessados pelo que há de humano em nós, com erros e acertos:

Sempre brigamos

e também nos desculpamos.

Somos humanos;

assim, erramos e amamos! ("Mãe", p. 59)

Outra questão a ser pontuada é a diversidade na representação das mães, a pluralidade de identidades, a certeza poética e vital de que na existência não existe o estereótipo de Mãe Universal:

Tem mães que são atletas,

praticam até natação.

Outras são tranquilas

e adoram ouvir canção! ("Mãe", p. 75)

Assim são estes poemas: expressões dos afetos e do mirar o existir de mães e filhos. Passos primeiros e primordiais dos pés (e das mãos) no jogo com as palavras, para extrairmos delas as vozes outras e as nossas, a leitura amorosa e amante, a escritura que nos constrói poeticamente na vida.


© Evaldo Balbino — setembro de 2021

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Livros ao mundo

 

Apple - livros -sala de aula - maçã. Disponível em: https://pixabay.com/pt/photos/apple-livros-sala-de-aula-256263/



Evaldo Balbino


Vai, meu pequeno livro. Que possa sobreviver à autora
e ter a glória de ser lido por gerações
que hão de vir de gerações que vão nascer.


Cora Coralina, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais



Vão, meus livrinhos!
Vão pelos caminhos,


para mãos que não conheço,
mas que são como eu sou.


Cada mão dizendo ao mundo:
"de livros eu careço!"



© Evaldo Balbino - 2021

domingo, 13 de janeiro de 2019

Fruteira de sete vidas

Mafalda no cesto - Arquivo pessoal de Evaldo Balbino





Onde antes maçã, caqui,
agora o sono do gato
em cama improvisada.

Agora o sono do gato
com certo sexto sentido
em cesto-bambu trançado.

© Evaldo Balbino 2018

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O nosso jardim de Cecília (canto a quatro vozes)


By Maria Ângela Haddad Villas e Roberto Caldas - 1985


O principal de tudo era o sapo jardineiro. Chapéu e calça azuis, uma camisa vermelha com esmaecidos laivos de branco. O chapéu era meio mexicano, para proteger do sol: rebaixado na cabeça e de abas razoavelmente largas. As cabeças dos sapos já são mesmo achatadas. Talvez fosse por isso que o chapéu era assim. E o sapo de que falo era verde. Nunca vi de verdade nenhum dessa cor. Os sapos da minha vida sempre foram de um tom mais sério, fechado. Me apaixonei pelo sapo que, sei muito bem, nunca viraria príncipe. Nem precisava virar.

As flores eram várias e muitas. De cores que eu nunca imaginara habitassem em flores. Rosas, vermelhas, azuis, amarelas, verdes, anis, violetas, laranjas e outros tons mais que já se misturaram nas memórias dos meus olhos. Brotavam do chão como brotam desejos de vida, anseios por alegria e eternidade. As florezinhas e suas folhas enfeitavam a terra e o gramado do jardim.

As borboletas também eram multicores: leves sobre o jardim, levitando entre lavadeiras e passarinhos. Se não fosse o apelo visual aos meus sentidos, eu imaginaria mulheres lavando roupas num riacho, bem no debaixo de pássaros folgazões. Mas meus dedos tocavam o livro, meu corpo sentia seu cheiro, meus olhos beijavam sua página colorida. E o que eu via eram insetinhos alados sobrevoando como helicópteros vivos as águas de uma fonte azul e branca. Com seus dois pares de asas transparentes, com seu corpo compridinho e cheio de anéis, cada uma das lavadeiras dava voltas pelo jardim e retornava sempre em voos rasantes para a fonte fresca e convidativa.

E os ovos verdes e azuis nos ninhos? Onde estavam? Lá jaziam, porém num só ninho, bem em cima do braço da estátua de primavera, uma menina linda, fantasmal, com cabelos longos e face branda. Toda ela de pedra, talvez, mas parecendo macia na sua alvura quase transparente. Sobre a sua cabeça, um pássaro descansando de voar. Em cada orelha uma flor, possivelmente furtadas por ela mesma do jardim. Ou então não tenha sido roubo, e sim oferta amável do sapo jardineiro e dócil. A menina de pedra segurava um balde também pétreo, do qual jorrava a fonte de água azul e branca.

Vagando sobre a mureta da fonte, o caracol namorava a queda d’água. Tomava sol úmido, esperando pelo arco-íris que ainda não aparecera. O raio de sol já atravessava as águas, só que o arco-celeste trazia ares tímidos, hesitando em mostrar-se ao caramujo exibido e celestroso. As antenas da lesminha estavam ligadas, voltadas para o ar líquido e levemente rumoroso à beira da fonte, esperando por mais vida onde a vida já era muita.

O lagarto, também verde, andava entre o muro e a hera. Do mesmo modo nunca vi, de verdade, lagartos verdes. Nunca fui apresentado a nenhum de carne e osso. Porque os répteis são vertebrados, aprendi isso desde cedo. E o verde lagarto, embrenhando-se pela trepadeira, sentia cada tijolo frio do muro, que era coberto de musgo num setembro que ia entrando. E ali o bichinho se misturava ao verde da planta.

O formigueiro, bem perto de tudo, era cerro alto galgado por formigas incansáveis. Em fila indiana, subiam e desciam as obreiras. Perto do sapo e do formigueiro, um grilinho dentro do chão, vindo de um buraquinho da terra e espreguiçando-se do sono tranquilo que tivera lá no escuro da toca. Era um grilinho preguiçoso, se podia ver.

Sentada no muro da fonte, ao lado da estátua de primavera, a cigarra tinha as pernas cruzadas onde apoiava seu violão. Ela e o instrumento eram uma coisa só, pura música e cor e vida. De olhos fechados, ela parecia sonhar com o que cantava. Sua boca fundava mundos, ditava o compasso da existência. O sapo, as flores, as borboletas, as lavadeiras, os passarinhos, os ovos verdes e azuis nos ninhos, a estátua de primavera, o caracol, o raio de sol, o lagarto entre o muro e a hera, o formigueiro, o grilinho e a cigarra cantando eternamente. Tudo isso era fruto do canto da cigarra.

E a cigarra verdadeira, voz humana poetizada, era Cecília Meireles no seu canto. A poeta leiloava com palavras um jardim e as belezas dele. E assim ela me vendeu a beleza para a vida inteira. Não somente ela, mas também Maria Ângela Haddad Villas e Roberto Caldas, os ilustradores que tornaram mais pictural ainda o poema da autora que me enfeitou a infância.

© Evaldo Balbino 2018

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A nossa história em cinzas: o perigo do esquecimento






No fim do dia de ontem, na Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro, o Museu Nacional em chamas mostrou com evidência um país que abandona todos os dias as suas culturas. Já vítima há tempos de uma degradação paulatina (com falta de verbas governamentais, de reformas adequadas, de financiamentos etc.), o museu viveu ontem o ápice a que pode chegar um desgoverno, um barco aparentemente sem capitão e sem leme que demonstra ser o Brasil.

Aparentemente sem capitão e sem leme é o nosso país. Pois existem sim capitães lá em Brasília e em todas as outras instâncias executivas da nossa nação. O barco, que parece à deriva, na verdade segue rumos de acordo com a sede de dinheiro e de poder dos tais capitães. Os umbigos dos caciques políticos falam mais alto do que as reais necessidades da civilização brasileira. E são várias essas necessidades, entretanto falo aqui basicamente dos imperativos culturais. Constatar isso me faz ter um sentimento perigoso de frustração e me faz ver as caras de políticos (em panfletos, na televisão e na internet) como figuras reais de seres que utilizam a política como carreiristas e sanguessugas no corpo do povo.

Quem andar pelo Brasil afora terá o desprazer de presenciar o descuido com nossa arquitetura, o desprezo para com nossa memória histórica e cultural. Rios de dinheiros são gastos com eventos populares, com festas de exposição agropecuária, com apoio a torneios esdrúxulos onde animais são objeto de diversão humana, com shows de qualidade duvidosa. Mas pouco ou quase nada se investe, por exemplo, em nossos museus. Há exceções. E, como este substantivo indica, são poucos os casos extraordinários. O desleixo que vemos em nosso país em relação aos bens culturais é estratégia de um governo ao qual interessam o lucro próprio dos seus ocupantes e o lucro das elites endinheiradas daqui e do mundo.

Há quem veja, infelizmente, qualquer museu como coisa do passado. Tal pensamento encara o tempo como se fosse apenas um agora se projetando para o futuro e desdenha tudo o que construiu e constrói constantemente nossa agoridade. Somos o que somos em construção, porque diversos fatores vieram e vêm confluindo para o que estamos vivendo hoje. O esquecimento é um perigo para qualquer cultura. Esquecer é perder a identidade. Esquecer é deixar que males se repitam, que explorações se reatualizem, que os grandes problemas históricos retornem fantasiados ou não com outras máscaras. Se forem as mesmas assombrações do passado a retornarem, muitos as têm por novidade. E isso por desconhecimento da nossa história, da nossa formação cultural.

Estamos, indubitavelmente, num país onde existe um culto ao esquecimento. Habitamos uma nação onde constantemente transformamos em cinzas parte da nossa história ou, às vezes, toda ela. Estamos num país em que forças reacionárias, violentas e perigosas, ressurgem a toda hora como vozes heroicas, como salvadoras da pátria. Como acreditar num país em que muitas pessoas dizem que votarão em discursos militares defensores, por exemplo, de torturas a adversários políticos historicamente conhecidas?

A tática das forças reacionárias de nosso país é o apagamento, o esquecimento. Um povo sem memória é escravo da alienação, é marionete, é fantoche. Um país que não apoia e não reconstrói cotidianamente suas culturas, suas memórias, é um país fadado a ser um barco não à deriva, mas uma nave dominada por capitães que são donos do privilégio econômico.

O incêndio que começou ontem no Museu Nacional e que atravessou praticamente a madrugada do dia de hoje é mais uma demonstração de como nossos governantes zelam pela nossa cultura. Acidentes acontecem. Mas não garantir infraestrutura adequada para se evitar ou combater tais acidentes ou é loucura ou é malícia devotada a interesses espúrios. E eu digo que se trata de malícia e de interesses espúrios. Interesses de governos que passam ao largo de qualquer democracia.
Hoje pela manhã, o museu em cinzas. E para que esta fênix renasça, precisamos dos brasileiros de olhos abertos, precisamos de cidadãos mais antenados com as questões culturais do seu país, necessitamos de eleitores mais atentos e mais ativos para acompanharem a atuação de nossos governantes.


© Evaldo Balbino 2018

domingo, 2 de setembro de 2018

Uma voz para ser ouvida






Evaldo Balbino


Hoje pela manhã me dei um presente. Que a gente deve se amar dessa maneira, presentear-se, e não esperar que apenas os outros nos amem, nos presenteiem. O amor a si mesmo não é egoísmo, e sim um modo de se fazer existir, de se ter autoestima, de um reconhecimento em si dos próprios limites, mas também dos próprios e adoráveis valores.
Nesse amor de mim para mim mesmo, me dei então um presente. Em sintonia com as modernidades, não busquei discos, porque não os tenho; nem CDs, pois estes estavam lá num armário e a preguiça domingueira não me deixou sair da cama. Acessei então o “doutor” Google e naveguei pela modorra dominical.
Na Web, fui direto para as canções do Vander Lee, esta cigarra sem peias que compôs e cantou tão bem nesta vida. As baladas do Vander me embalam, me dançam, me fazem sentir e apreciar a boa poesia na música. Já tive oportunidade de escrever sobre o artista em outro momento, uma hora triste, quando ele faleceu. Fiz isso no dia 08 de agosto de 2016 numa crônica chamada “Trem do desejo pela noite escura”, a qual foi publicada no Jornal das Lajes. Foi-se ainda muito jovem o Vander, mas deixou obra de fôlego e consumada.
A canção que me dei nesta manhã foi nada mais nada menos do que “Onde Deus possa me ouvir”. Foi um vídeo ao que acessei. E um desejo como um rio profundo me atravessou, um silêncio na melodiosa voz do cantautor, seu semblante circunspecto, seu corpo curvando-se nos momentos em que a letra demanda um corpo curvado, a boca se abrindo e os olhos dizendo tudo junto com as palavras. E de vez em quando o cantor sorrindo, pois o sorriso é necessário nesta vida mesmo quando falamos de coisas muito sérias.
E meu corpo mergulhou na música, meu corpo querendo encontrar alguém sem palavras, mas alguém que me oferecesse um colo ou um ombro. Alguém que viesse para ouvir desenganos desta vida louca, de pessoas tristes, de amigos nem tanto amigos assim. Vander me acendeu, mais uma vez, o anseio de eu morar no meu interior, para ali, nos recônditos do meu ser, entender mais as agressões entre as pessoas, os seus combates e debates, os abismos escuros onde se jogam o tempo inteiro.
E se eu encontrasse esse alguém com um ombro amigo, aí eu lhe pediria, como o fez o cantor, pra eu chorar até cansar, pra ele me levar a algum sítio onde Deus em sua plenitude pudesse me ouvir. E eu diria ao ombro amigo e a Deus que não consigo compreender tão grande dor. Meu coração não abarca dor tão absurda. A dor em pensar nesse mundo e suas sombras. E também a dor, a que me salva, a que me atravessa e me fere quando escuto a beleza e as verdades dessa canção.
E continuei vendo o vídeo e ouvindo a música. Atento, amante. Aprendendo que não devemos buscar diretamente no outro a completude da nossa vida. Só indiretamente é que devemos fazê-lo, e é através do belo que reside em tudo aquilo que o outro é capaz de produzir.
Uma busca direta, imediata mesmo, devemos fazê-la no seio de Deus. Ele sim é a própria completude. Um deus muito além das representações fragmentárias e humanas. E com esse deus me abro e dispo meu corpo e minha alma. Tiro a roupa e me entrego. E aproveito para lhe pedir um pouco de bebida, que ninguém é de ferro. E ele consente, de puro amor.

© Evaldo Balbino 2018