Verso do poema "(Des)motivo" - do livro "Moinho" - 1ª edição 2006; 2ª edição 2021

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Que tiro foi esse? O vampiro, os patos e as panelas na cara da política e da sociedade brasileiras






Evaldo Balbino



Que tiro foi esse?! Não, não vou falar aqui no tom jocoso e na piada pela piada do funk que tomou as pessoas pelo Brasil afora nestes últimos meses. Rir por rir também é bom, nosso corpo e mente agradecem. Mas nossa mente e corpo precisam também, e sobretudo, de bombardeios ferinos, de arte que se faz com estética e ética.

O tiro foi dado neste Carnaval de 2018 pela Paraíso do Tuiuti. Com o tema do trabalho escravo na história do mundo e do Brasil, a escola de samba arrebatou a atenção de muitos, chegando a ser o assunto do momento. Graças a Deus!!! Coisas boas ainda atraem as pessoas.

Levando ao desfile o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, o carnavalesco Jack Vasconcelos faz uma pergunta retórica e joga na cara do mundo um NÃO retumbante.

Os carros alegóricos fizeram desfilar na Sapucaí a memória triste da opressão que atravessou os humanos em suas relações de poder. Mas a tristeza dessa memória não é motivo para lamentações e muito menos para esquecimento. Muito pelo contrário. A arte vem com toda força para nos dizer que o passado e o presente devem ser passados e repassados a limpo, criados e recriados, encenados e reencenados. E nessa performance memorialística nós podemos pensar, sentir, refletir nos modos como negar os males de nosso mundo e como construir futuros. Nega-se não para olvidar, mas no sentido de questionar para fazer diferente.

Alguns chegaram a dizer, e não deixam de estar certos, que a escola de samba trabalhou com generalizações quando, por exemplo, abordou diferentes culturas do continente africano. Isso é fato. É um fato que, porém, não tira o mérito da Paraíso do Tuiuti em denunciar que a escravidão não acabou no mundo. E muito menos no Brasil.

O enredo foi se concentrando aos poucos na história do nosso país. E chegamos, mais ao final, ao momento sociopolítico e econômico que vivemos em nosso país: um momento de retrocesso nas conquistas sociais.

A ala dos Guerreiros da CLT bradava carteiras de trabalho, denunciando-se com isso os abusos a que os trabalhadores têm sido cada vez mais submetidos.

O último carro alegórico nos trouxe um lance definitivo – o presidente vampiro e diabólico na sua pomposa faixa presidencial. Faixa essa arrebatada num golpe de estado. No topo de um carro chamado justamente Neo Tumbeiro, uma reatualização do navio negreiro denunciado por Castro Alves, essa encarnação do presidente Michel Temer nos olhava com olhos ávidos e um rosto branco entre dólares.

Na parte mais baixa desse carro, fantoches eram “manifestoches” batedores de panelas. Manifestantes sem vontade própria. Patos com cifrão nos olhos, panelas sendo batidas em suas mãos, todos eles eram marionetes dos altos poderes industriais, jurídicos e midiáticos. E todos, nessa dança política vergonhosa do Brasil, manipulados sob a batuta do grande vampiro Michel Temer, como representado.

Apareceram panelas que, bem no seu dentro, traziam colados papéis com o dizer “Fora, Temer!”. E isso, mesmo dentro das panelas, não foi feito “por debaixo dos panos”. Não, não foi feito! Muitas personagens marionetes eram submetidas pelos atores, e estes artistas faziam questão de mostrar o de dentro das panelas para as pessoas e para as câmeras de televisão. Na arte a liberdade pode gritar, atirar, arremessar, jactar, jogar. Lançar aos quatro ventos o que se quer dizer, toda e qualquer palavra presa na garganta.

E nesse momento os comentaristas da Globo quase nada puderam falar. Até então, durante o deslizar do enredo crítico, esses mesmos comentaristas diziam de detalhes sobre o passado do Brasil e do mundo. Agora, no arremate, proferiram generalidades, não arriscando descolar-se muito das figuras da encenação. Falavam de "classe dominante, “faixa presidencial”, "vampirão".  Até mesmo quanto à ala dos manifestantes fantoches, os anotadores ficaram vexados e nem ousaram nomear, para além das figuras, os bichinhos amarelinhos que, em profusão, deslizavam pela Sapucaí. Os comentaristas, coitados, são também escravos. “Escravos" da patroa Globo. Vítimas como muitos de nós de um grande bandido: o grande empresário que paga o nosso salário e que exige que falemos só o que pode ser dito.

O tiro foi dado na Sapucaí. Bem na cara da corrupta política brasileira. Na cara dos grandes empresários. Na cara das mídias-níqueis. Na cara dos altos juristas sanguessugas. Na cara, por fim, das muitas pessoas alienadas das classes médias; das que, batendo panelas, julgaram-se donas de si mesmas quando, na verdade, eram títeres nas mãos dos que de fato detêm os poderes em nosso país.



© Evaldo Balbino 2017



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O que cintila no escuro

Evaldo Balbino

          Meu amigo Edilson Miranda postou no Facebook um poema seu intitulado “Às palavras surgindo das trevas”. O texto fala do amor que vem e atormenta, do amor que chega e causa desequilíbrio, espera, ansiedade, desejo incontrolável de amor e de amar.
          Na ilustração, uma cabeça cheia de palavras, atravessada vertiginosamente de letras tresloucadas numa torrente forte, invencível. E da boca semiaberta essas palavras e letras saem, também numa corrente irreversível para o mundo. Assim é o poema, uma enxurrada de lamento, de questionamento sobre o porquê de o amor chegar tão doloroso por justamente causar dor e excitação que incomodam. Não sei de quem é o desenho. Se do autor do poema ou se de outra pessoa atormentada por palavras ou, por que não?, também pelo amor.
          Quem ama fala. Seja com gestos ou palavras, claros ou esmaecidos. Quem ama se denuncia, sem mais nem menos, mesmo quando não quer. Uma fuga do olhar, um pensar que não para facilmente, uma obsessão do pensamento sem fim, o recuo do corpo, o desejo de se ver bonito diante de quem se ama. E quando fala com palavras, o amor também titubeia ou é firme, relutante ou decidido. De qualquer modo, calmo ou irrequieto, tímido ou atrevido, o amor é coisa que nos torna incomodados, é motor que nos move ao nosso bel-prazer. Nesse sentido, o amor pode se confundir com a paixão, sem percebermos relação de anterioridade e posterioridade entre esses dois sentimentos.
          Falemos aqui especificamente do amor que nos invade, que chega e nos queima o nosso frio sem pedir licença. Falemos a partir das palavras do referido poema de meu amigo.
          A Primavera, a alegria, o perfume, as cores, a leveza, a brisa, o acalento. Tudo isso poderia ser os modos de o amor se achegar a nós. E ele de fato chega por esses caminhos. Mas não só assim. Outras alamedas lhe são também passagem. Outros caminhos servem também aos pés amantes e furtadores; a esses pés que vêm e roubam, na calada da noite, a nossa alma, o nosso corpo.
          Aí, nesse ponto, quando o ladrão de nossas vontades se aproxima sem pedir consentimento, amor e paixão se confundem. A afetividade que tem o outro em conta, que se preocupa com seus sentimentos, com seu estado de espírito e corpo, com sua vida se vai bem ou não, com seus problemas – essa afetividade não vai embora, não se apaga na escuridão do egoísmo. É nesse mesmo ponto de advento inconsentido do amor que o altruísmo não morre, não desaparece, mas convive de modo tenso com um apego próprio, com a obsessão de se satisfazerem os próprios desejos. Amamos o outro; ele é objeto do nosso desejo. Sem ele, ficamos sem chão, nossos pés caminham descontrolados, e nós naquela ilusão – boa ou má (depende do ponto de vista) – de que sem o ser amado não temos arrimo. E o nosso mundo parece querer desabar a qualquer momento.
          A erupção em nós se expande, o vulcão transborda e um fogo ardente alastra-se em nossa existência corporal e espiritual, como se diz no poema do meu amigo. Essa chama nos "queima por dentro".
          Nesse sentido, o amor, vindo por esses caminhos enviesados, sem pedir licença, bem na calada da noite, é um ladrão astuto e fascinante.  Esse mesmo amor nasce do escuro em nossas vontades. Não vem de uma arbitrariedade do indivíduo. Viramos marionetes, títeres avassalados. É desrazão tudo isso?! Que seja. Também de ilusões nos erigimos.
          Vê-se, então, que é também das trevas que vêm o calor, a erupção, o fulgor. O nosso não consentimento não basta para que o outro não nos invada, nem que seja em pensamento. Nosso poder de relutar existe, mas arrefecido. Chega em muitos casos a quase se apagar. Fica sem luz até. A escuridão, no entanto, não é ausência de luz. Ela é a presença do fogo. O escuro também ama. Do mesmo modo queima.
          O poema do meu amigo me fez pensar tudo isso. Ilusões!? Elucubrações de um mero ser que não é psicólogo, que sequer consultor sentimental chega a ser?! Que seja tudo isso. Palavras me atravessam. E ciência nenhuma me serve nessa hora de enxurrada me lavando e levando.
          Palavras me carregam, como os sentimentos que me domam e nos domam a todos. Mais fortes são essas doidices em alguns momentos, mais brandas em outros. Alguém já deve ter escrito que nem só de razão vivem as pessoas, mas também de toda as loucuras possíveis desta vida. Se ninguém escreveu isso, escrevo agora.

© Evaldo Balbino 2018